quarta-feira, 29 de maio de 2019

Vou Dormir - Poesia de Alfonsina Storni

Nasceu no dia 29 de maio de 1982 a poetisa argentina Alfonsina Storni, e hoje ficamos aqui com uma de suas poesias!



VOU DORMIR

Dentes de flores, cofia de sereno,
Mãos de ervas, tu ama-de-leite fina,
Deixa-me prontos os lençóis terrosos
E o edredom de musgos escardeados.
Vou dormir, ama-de-leite minha, deita-me.
Põe-me uma lâmpada a cabeceira;
Uma constelação; a que te agrade;
Todas são boas: a abaixa um pouquinho
Deixa-me sozinha: ouves romper os brotos...
Te embala um pé celeste desde acima
E um pássaro te traça uns compassos
Para que esqueças... obrigado. Ah, um encargo:
Se ele chama novamente por telefone
Diz-lhe que não insista, que sai...

Alfonsina Storni


sexta-feira, 24 de maio de 2019

Caleidoscópio Cinemascope - Poesia de Chacal



CALEIDOSCÓPIO CINEMASCOPE


a vida é um cristal
que se reflete em pedaços
a vida como ela é
é a coleção dos cacos


vi um filme que Aladim
da lâmpada tirava um gênio
ele era James Dean
que tinha a cabeça a prêmio


eu parti do Irajá
passando por Paraty
eu ainda chego lá
até onde quero ir


vi um filme que Fellini
fez num ensaio de orquestra
tinha tiro de canhão
e acabava numa festa


se no mato me perdi
nesse mato me acharei
entre mais de mil picadas
numa delas sou o rei


eu vi Deus e o diabo
dançando na terra do sol
Glauber Rocha era o máximo
tão bom quanto rock-and-roll


minha estrada é um filme
cheio de amor e ódio
pra onde quer que me vire
cinemascope caleidoscópio.

In: CHACAL. Comício de tudo: poesia e prosa. São Paulo: Brasiliense, 1986. p.112-113.
Fonte: https://www.escritas.org

sexta-feira, 17 de maio de 2019

ESCÁRNIO PERFUMADO por Cruz e Sousa


ESCÁRNIO PERFUMADO

Quando no enleio
De receber umas notícias tuas,
Vou-me ao correio,
Que é lá no fim da mais cruel das ruas,
Vendo tão fartas,
D'uma fartura que ninguém colige,
As mãos dos outros, de jornais e cartas
E as minhas, nuas — isso dói, me aflige...
E em tom de mofa,
Julgo que tudo me escarnece, apoda,
Ri, me apostrofa,
Pois fico só e cabisbaixo, inerme,
A noite andar-me na cabeça, em roda,
Mais humilhado que um mendigo, um verme... 

Cruz e Sousa

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Necessidade - Poema de Aline Elias


Necessidade 


Solidão e multidão 
Ao mesmo tempo 
E cinco amigos 
Um para confessar 
Outro para rir 
Alguém para chorar
Um  para seguir 
Outro para discutir 

Aline Elias