quinta-feira, 18 de junho de 2026

O que Machado de Assis sabia sobre a mente humana antes da ciência?

No próximo dia 21 de junho, celebramos o aniversário de nascimento de Machado de Assis, um dos maiores nomes da literatura brasileira. Quase dois séculos após seu nascimento, sua obra continua despertando debates, inspirando pesquisas e revelando novas camadas de interpretação. 

Muito se fala sobre a genialidade de Machado ao retratar a sociedade de sua época, mas há um aspecto particularmente fascinante em seus textos: a forma como ele explorou questões ligadas à mente humana décadas antes de elas se tornarem objeto de estudo da ciência moderna.


Essa relação entre literatura, psiquiatria e comportamento humano é o ponto de partida do livro Machado de Assis: a loucura e as leis, da Matrix Editora, escrito pelo psiquiatra e professor da USP Daniel Martins de Barros. Na obra, o autor analisa diversos contos machadianos e mostra como o escritor abordou temas que hoje fazem parte das discussões da psicologia, da neurociência e até do direito.

Em O Anjo Rafael, por exemplo, Machado descreve um caso muito semelhante ao que a medicina posteriormente chamaria de psicose compartilhada. Já em O Lapso, apresenta estratégias de raciocínio e mudança de comportamento que lembram princípios utilizados atualmente pela Terapia Cognitivo-Comportamental.

Mas talvez o mais impressionante não seja a coincidência entre ficção e ciência. O que realmente chama atenção é a capacidade do escritor de observar o ser humano com profundidade. Em contos como A Ideia do Ezequiel Maia e Entre Santos, ele investiga a consciência, os desejos ocultos, as motivações inconscientes e os mecanismos que influenciam nossas escolhas — temas que continuam sendo estudados por pesquisadores até hoje.

Em Uma Partida, Machado também estabelece relações entre desejo, compulsão e comportamento, antecipando discussões que mais tarde seriam exploradas pela psicanálise e pela neurobiologia. Já em Conto Alexandrino, aborda questões ligadas à criminalidade, à ética científica e aos limites das intervenções sobre o comportamento humano.

Esses exemplos mostram que a literatura não apenas acompanha seu tempo. Em muitos casos, ela o ultrapassa. Ao mergulhar nas contradições, desejos e fragilidades humanas, escritores como Machado de Assis alcançam percepções que permanecem relevantes mesmo quando o mundo muda ao seu redor.

Talvez seja por isso que sua obra continue tão viva. Mais do que contar histórias, Machado nos convida a refletir sobre quem somos — e essa é uma pergunta que nem a ciência conseguiu responder completamente.

E você? Acredita que a literatura pode compreender a alma humana antes mesmo de a ciência encontrar explicações para ela?


domingo, 14 de junho de 2026

Quando a alegria e a tristeza dividem o mesmo verso

Escrever um poema é, muitas vezes, tentar organizar aquilo que sentimos. Mas nem sempre os sentimentos chegam separados, em gavetas bem definidas. Às vezes, eles se misturam.

Há dias em que celebramos o presente e sonhamos com o futuro. Em outros, somos visitados pela saudade daquilo que ficou para trás. E existem momentos em que tudo isso acontece ao mesmo tempo.

Este poema que criei nasceu dessa percepção: alegria e tristeza não são opostas que se anulam. Elas podem caminhar juntas.


A alegria está nas experiências que vivemos agora, nas pequenas conquistas, nos encontros, nos sonhos que ainda nos fazem sorrir. Já a tristeza encontra espaço nas lembranças, nas despedidas e em tudo aquilo que fez parte da nossa história, mas que não voltará a ser como antes.

Talvez a poesia tenha justamente essa função: acolher sentimentos contraditórios sem exigir que escolhamos apenas um deles. Dentro de um poema cabe a gratidão pelo que existe e a saudade do que passou. Cabe o sorriso e a lágrima. Cabe a vida inteira.


Aline Elias

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Olga Savary e a coragem de viver poesia

 "Destino é o nome que damos à nossa comodidade, à covardia do não-risco..." 🌹

No dia 21 de maio, celebramos o nascimento de Olga Savary (1933–2020), uma das grandes vozes da poesia brasileira contemporânea. Nascida em Belém do Pará, Olga construiu uma obra intensa, sensível e profundamente marcada pela liberdade — tanto na linguagem quanto na forma de enxergar o mundo.



Poeta, escritora, tradutora e importante divulgadora da literatura hispano-americana no Brasil, Olga Savary fez da poesia um território de coragem, desejo e encantamento. Sua escrita atravessa o amor, o corpo, a memória, a natureza e o cotidiano com uma delicadeza que nunca abandona a força.

O poema Iraruca, publicado originalmente no livro Linha d'Água (1987). Mais do que um poema, seus versos parecem um chamado à intensidade da vida — um convite para existir sem medo da experiência, sem aceitar a comodidade do “não-risco”.

Talvez por isso sua poesia continue tão viva: porque Olga escrevia como quem realmente “pegava as coisas com os dentes”.

Que hoje a nossa pátria também seja a poesia. Viva Olga Savary! ✨


Aline Elias

domingo, 26 de abril de 2026

Aquilo que insiste em se revelar

Há pensamentos que não pedem licença.

Eles não chegam quando são chamados, nem obedecem lógica ou rotina. Apenas surgem — no meio do silêncio, no intervalo de um dia comum, no instante em que a mente parece distraída demais para resistir.

E então, o sonho se aproxima.

Não como fuga, mas como linguagem.

Uma tentativa sutil — e às vezes confusa — de traduzir o que ainda não sabemos nomear. Como se algo dentro de nós estivesse em processo, buscando forma, buscando voz… buscando ser entendido.

Nem tudo quer ser revelado de imediato.


Algumas verdades preferem o disfarce. Vestem símbolos, embaralham memórias, atravessam imagens desconexas. Não para esconder, mas para preparar.

Porque compreender também exige tempo.

Talvez o que nos inquieta não seja o mistério em si, mas a sensação de que há algo ali… quase acessível… quase dito.

E ainda assim, não completamente.

Há coisas dentro de nós que não se explicam.


Aline Elias

quinta-feira, 19 de março de 2026

Quando o coração vira um cadeado...

Há um momento, quase imperceptível, em que deixamos de nos abrir.


Não acontece de uma vez. Não é um gesto dramático, nem uma decisão consciente. É um acúmulo. Pequenas decepções, silêncios mal resolvidos, expectativas que não encontram resposta. E então, quando percebemos, já estamos nos fechando.

E nos fechando.

E nos fechando.

Como alguém que, por medo de sentir novamente, decide trancar tudo — inclusive aquilo que ainda pulsa.

O problema é que o coração não foi feito para ser guardado a sete chaves. Ele não esquece só porque está protegido. Pelo contrário: às vezes, quanto mais tentamos esconder, mais forte aquilo permanece dentro de nós.

A dor não vai embora com o isolamento. Ela apenas aprende a morar em silêncio.


Aline Elias

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O Animal que Ainda Habita em Nós

 



Há algo em nós que não é só razão.
Há algo que pulsa, instintivo, selvagem… vivo.

O fauno, metade humano, metade animal, não é só uma criatura mítica —
ele é um espelho.

Quantas vezes tentamos silenciar esse lado?
Quantas vezes esquecemos que sentir também é existir?

Talvez não seja sobre domar…
Mas sobre escutar.


Aline Elias

sábado, 17 de janeiro de 2026

A arte nos mobiliza


A arte tem essa capacidade silenciosa — e ao mesmo tempo arrebatadora — de nos mover por dentro.

Ela nos coloca diante da beleza, mas não apenas daquilo que é agradável aos olhos. A beleza que a arte revela é a do desejo, da busca, da inquietação humana por algo maior. É a beleza daquilo que ainda estamos tentando compreender.

Quando nos permitimos sentir a arte, transcendemos a materialidade. Saímos do concreto, do imediato, e tocamos algo mais profundo — algo que não se explica completamente, mas que se sente.

A arte nos mobiliza porque nos lembra que somos mais do que rotina, mais do que matéria. Somos também sensibilidade, sonho e possibilidade.

Aline Elias