quinta-feira, 27 de junho de 2019

Gargalhada - Poema por Guimarães Rosa


Gargalhada


Quando me disseste que não mais me amavas,
e que ias partir,
dura, precisa, bela e inabalável,
com a impassibilidade de um executor,
dilatou-se em mim o pavor das cavernas vazias…
Mas olhei-te bem nos olhos,
belos como o veludo das lagartas verdes,
e porque já houvesse lágrimas nos meus olhos,
tive pena de ti, de mim, de todos,
e me ri
da inutilidade das torturas predestinadas,
guardadas para nós, desde a treva das épocas,
quando a inexperiência dos Deuses
ainda não criara o mundo…




João Guimarães Rosa, do livro “Magma”. 
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p. 91.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

As Sem-Razões do Amor - Poema de Carlos Drummond de Andrade


As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo. 
Não precisas ser amante, 
e nem sempre sabe sê-lo. 
Eu te amo porque te amo. 
Amor é estado de graça 
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça, 
é semeado no vento, 
na cachoeira, no eclipse. 
Amor foge a dicionários 
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque te amo 
bastante ou demais a mim. 
Porque amor não se troca, 
não se conjuga nem se ama. 
Porque amor é amor a nada, 
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte, 
e da morte vencedor, 
por mais que o matem (e matam) 
a cada instante de amor

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Olhar - Poema de Aline Elias


Olhar 

Teu olhar anoitece 
Interrogando aleatória cilada 
Nada deveria atrapalhar
Uma corrida de gazela 
A desorientada esperança 
Água gelada e morna 
Enquanto fervem os 
desejos incessantes
O rio vermelho pesado
Ramificado se espalha
Deixa ciente da mortalidade
uma vampira gulosa de juventude
Anseio transformar o rio 
em um mar de pérolas
Mas sou impotente raiz
que veio de seilá e voltará para seionde

Aline Elias