quarta-feira, 23 de junho de 2021

Dizeres Íntimos por Florbela Espanca


DIZERES ÍNTIMOS

É tão triste morrer na minha idade!

E vou ver os meus olhos, penitentes

Vestidinhos de roxo, como crentes

Do soturno convento da Saudade!


E logo vou olhar (com que ansiedade! ... )

As minhas mãos esguias, languescentes,

De brancos dedos, uns bebés doentes

Que hão-de morrer em plena mocidade!


E ser-se novo é ter-se o Paraíso,

É ter-se a estrada larga, ao sol, florida,

Aonde tudo é luz e graça e riso!


E os meus vinte e três anos... (Sou tão nova! )

Dizem baixinho a rir: “Que linda a vida! ... ”

Responde a minha Dor: “Que linda a cova! ... ” 


Florbela Espanca

sábado, 19 de junho de 2021

Sonhar por Helena Kolody


Sonhar - Helena Kolody


Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço

Aos páramos azuis da luz e da harmonia;

É ambicionar o céu; é dominar o espaço,

Num vôo poderoso e audaz da fantasia.


Fugir ao mundo vil, tão vil que, sem cansaço,

Engana, e menospreza, e zomba, e calunia;

Encastelar-se, enfim, no deslumbrante paço

De um sonho puro e bom, de paz e de alegria.


É ver no lago um mar, nas nuvens um castelo,

Na luz de um pirilampo um sol pequeno e belo;

É alçar, constantemente, o olhar ao céu profundo.


Sonhar é ter um grande ideal na inglória lida:

Tão grande que não cabe inteiro nesta vida,

Tão puro que não vive em plagas deste mundo.


Helena Kolody


sexta-feira, 11 de junho de 2021

Que Deslize por Ana Cristina Cesar

 

QUE DESLIZE


Onde seus olhos estão

as lupas desistem.

O túnel corre, interminável

pouco negro sem quebra

de estações.

Os passageiros nada adivinham.

Deixam correr

Não ficam negros

Deslizam na borracha

carinho discreto

pelo cansaço

que apenas se recosta

contra a transparente

escuridão.


Ana Cristina Cesar


sábado, 5 de junho de 2021

Poema de Federico García Lorca


A rosa

não buscava a aurora:

quase eterna no ramo

buscava outra coisa.


A rosa

não buscava ciência nem sombra:

confim de carne e sonho,

buscava outra coisa.


A rosa

não buscava a rosa:

imóvel pelo céu

buscava outra coisa.


García Lorca