sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Feliz 2022! Dois poemas para o Ano Novo!


FINAL DE ANO


Perdas e descobertas 

Força e alegria e coragem 

Se sobrevivemos a esse 

O próximo será muito melhor. 


REFLEXÃO


Ano de finalizações 

Medo e abandono 

Estagnação doentia

Esforço de abertura 

De mente e corpo 

Sentir dor e alegria 

Reflexão. 


Aline Elias

sábado, 18 de dezembro de 2021

3 Poemas: Quase... Ou Mais? / Trabalho / Realeza


QUASE... OU MAIS?


Os cachorros são fedidos 

Tem que estar limpos 

Ele é quase uma pessoa 

Ou mais do que algumas. 


TRABALHO


Quem está contente 

Esquece as necessidades 

Não se pode tirar o juízo

De quem precisa trabalhar 


REALEZA


A desumanização

Rosto e corpo de boneco 

Socialmente integrados 

Isso é realeza. 


Aline Elias

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

3 Poemas: Lado Selvagem / Técnica / Acomodação

 


LADO SELVAGEM


Os nossos instintos 

Precisam ser preservados

O lado selvagem 

Que pode nos salvar. 


TÉCNICA


Com a técnica sobrevivemos 

Qual o limite? 

Algum momento temos que voar

Para sobreviver.  


ACOMODAÇÃO


As pessoas são acostumadas 

A caberem em seu lugar 

Sair dali para ser outro 

É inconcebível.  


Aline Elias

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

5 Poemas: Gerusa / Guardião das Memórias / Pacotes Abertos / Separação / Um Pouco Monstruoso

GERUSA


Ah Gerusa 

Dos cabelos negros 

Umedecidos de vapor 

Entrelaçados nos dedos. 



GUARDIÃO DAS MEMÓRIAS


Você se foi 

Pensei em ter você por tanto tempo 

Que você estaria por aí 

O guardião das memórias 

Que agora estão solitárias 


PACOTES ABERTOS


O tempo me traiu 

Deixou os pacotes abertos 

Lembranças desgovernadas 

Esperava que você fosse ficar 

Para fechar a história.  


SEPARAÇÃO


O caos dos escritos 

Espera por separação 

Nada sai do coletivo 

Sem procurar diferenciação. 


UM POUCO MONSTRUOSO


O hábito e a repetição 

Vão nos tornando outra coisa 

Um pouco monstruoso 

Esse levar a loucura. 


Aline Elias


sexta-feira, 26 de novembro de 2021

5 Poemas: Decisão / Oráculos / Faz Muita Falta / Então Agradeço / Ser a Mudança


DECISÃO


Não temos que esperar nada 

Nem saber o que irá acontecer 

O que devemos decidir 

E que seremos felizes. 


ORÁCULOS


Ah os oráculos da noite 

As vezes somos oráculos 

E capazes de conhecer 

Os segredos da serpente. 


FAZ MUITA FALTA


Fico feliz com a vida 

O cotidiano preenche

Cansam as repetições

Faz muita falta 

Poder ser nômade 



ENTÃO AGRADEÇO


Mais um dia de beleza 

Alegria e bem-estar 

Então agradeço 

Sem pensar no dia seguinte. 


SER A MUDANÇA


Quando nós repetimos 

O dia seguinte será o de hoje 

Mas não seremos os mesmos

Podemos mudar o caminho. 


Aline Elias

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Cinco Poemas Autorais: Deixar pra Lá / Para Ser Criativo / Imagem e Escrita / Não Importa / Roda da Vida


DEIXAR PRA LÁ


Posso esquecer um pouco de Ser

Deixar pra lá um pouco do orgulho 

Deixar-me levar por coisas bobas 

Exercitar a humildade de errar 


PARA SER CRIATIVO


Ser criativo é criar 

Todos temos essa aptidão 

Aperfeiçoar precisa de roteiro 

De tempo e dedicação 



IMAGEM E ESCRITA


A imagem e a escrita 

Abstração ou figuração ou palavra 

Uma pode gerar a outra 

Gestação que não acaba. 


NÃO IMPORTA


Não importa o que não pude ver 

Eu sigo 

Não importa o que ouvi 

Eu sigo 

Não importa o que fui 

Mas o que sou. 


RODA DA VIDA


A dança cósmica de Shiva

Destruição e criação

Uma roda da vida 

Sem começo nem fim.


Aline Elias

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Cinco Poemas Autorais: Registro / Em Um Lugar Adequado / Deserto / Livre / Minha Escolha


REGISTRO


Não quero ser literata 

Nem ficar para a posteridade 

Quero apenas escrever 

Registrar o meu coração 



EM UM LUGAR ADEQUADO


Uma história tem seu início 

E se une a experiência 

Presentes na memória 

Guardadas no sótão. 



DESERTO


Ah o deserto 

Das Jamiles e dos Ibrahims 

A imensidão seca 

Recado da morte 

Na busca pela vida.




LIVRE


Desisti de fazer o mais bonito 

O perfeito como alguém já fez

Faço poesia e fragmento livre 

Sem pudor ou correção 



MINHA ESCOLHA


Não quero incríveis experiências 

Escolho fazer o que gosto 

O que traz alegria e prazer 

Sem preocupação em mostrar 

Ou demonstrar perfeição 

Esquecer um pouco do Eu Sou 


Aline Elias


sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Três Poemas Autorais: Prefiro Sentir / Sacrifício / Os Outros


PREFIRO SENTIR


Não preciso dizer que amo 

O amor se vê nos olhos 

No toque e nas mãos

As palavras podem ser ditas 

E passam pelo pensamento 

São fáceis e ilusórias 

Prefiro sentir. 


SACRIFÍCIO


Se os sonhos são sagrados 

Então me sacrifico 

Todas as noites 

Tenho o meu altar. 


OS OUTROS


Não sabemos do que os outros gostam 

E nem conseguiremos saber 

Nunca iremos acertar 

Porque os outros são outros 


Aline Elias



sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Três Poemas Autorais: Renovação / Cura / A Pele Fala

RENOVAÇÃO


As palmeiras balançam 

No ritmo do vento 

A natureza as comanda 

Vez ou outra um galho cai 

E outro nasce 


CURA


A cura na água do mar 

Em respirar o vento 

Sentir a chuva 

Afundar os pés na areia. 


A PELE FALA


Sentimos pela pele

Os medos e as tristezas 

As alegrias e as transformações

A pele fala o que escondemos. 


Aline Elias


sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Dois Poemas Autorais: Sopro / Mulheres de Cabul

 



SOPRO


O vento que leva 

E traz novo vento 

Que leva de novo 

E volta como brisa 

Ou furacão. 


MULHERES DE CABUL


As mulheres de Cabul 

Não abaixam as cabeças 

Enfrentam como podem 

A violência covarde

Dos homens medrosos. 


Aline Elias


sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Dois Poemas Autorais: Jardins de Allah / Felicidade

 


JARDINS DE ALLAH


As altas palmeiras 

Balançando ao vento 

Os jardins de Allah 

Onde vivi muito amor. 


FELICIDADE


Temos que ser felizes 

Comparados aos infelizes 

Cegos para a infelicidade 

Que acomete os outros 


Aline Elias

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Cinco Poemas Autorais por Aline Elias

 


OUSADIA


Conselhos transformadores 

Credos de outros crentes 

Vai e vem e vem e vai 

Até que você ousa 

Ser você.


ANSIEDADE


Com a Ansiedade 

Vem a Dor 

O Sofrimento 

Tristeza de corpo e alma 


NÃO QUERO


Não quero ser louco 

Nem chato  

Não quero ser herege 

Nem pecador 

Não quero ser estranho 

Nem anti social 

Mas as vezes sou tudo isso 

E também louco. 


A GRANDEZA DO MAR


A grandeza do mar 

Lembra como somos pequenos

E quanto nos apavora 

A força do desconhecido. 


AS CRIANÇAS


As crianças nos alegram 

Quanto menores 

Maiores em almas 

Os barulhos e o sorriso 

As pequenas águas 

Maravilhas de Deus. 


Aline Elias

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Dois Poemas Autorais: Bem Guardado / Como é Bom


BEM GUARDADO


O tesouro não está no ouro 

Ele não vai pendurado 

No pescoço ou no dedo 

Ele está guardado 

Bem dentro do coração


Aline Elias


COMO É BOM


Ah

Como é bom ajudar quem se ama

Rir os seus sorrisos 

Abraçar os seus abraços 

Chorar as suas lágrimas 

E sentir o coração esquentar 


Aline Elias


domingo, 12 de setembro de 2021

Carta para a Mãe por Aline Elias

 


CARTA PARA A MÃE

12/09/2021


Queridíssima mãe, parabéns pelo seu aniversário

Começo essa carta depois de olhar-me no espelho e ver você.  Em tudo você está presente, nas minhas escolhas de roupas, nos filmes, nas memórias antigas da família, nos ditos populares, na comida atrapalhada e misturada, no jeito de esfregar o pé e de dormir escarrapachada. Sinto que quanto mais o tempo passa mais eu estou misturada com você. E imagino que você está longe recebendo muitas pessoas em festas e dando conselhos dos mais sábios aos mais engraçados e inadequados. A solidariedade viva dentro de você e a vontade de ajudar. 

Como você dizia, o mundo é mesmo muito grande. E você me deixou ser quem eu quisesse, mesmo com as minhas esquisitices. Falava que queria ter a minha cabeça, o meu modo de ser e de pensar. Cabeça de Veraline. Nesses tempos eu penso em você e em sua coragem para enfrentar a doença contagiosa do vovô. 

Estamos atravessando uma doença de contágio que é perigosa e levou embora o seu filho, o meu irmão querido. De uma forma que ninguém pôde vê-lo doente ou como estava sendo tratado ou saber de suas dores. Ele ficou por lá com médicos e profissionais desconhecidos. E nem pudemos ver o seu velório ou o sepultamento. Tudo as escuras e a única coisa que eu sabia de verdade é que ele pediu para me avisar que estava sendo internado. Isso de nada adiantou porque não pude protegê-lo nem fazer qualquer coisa que diminuísse suas dores. 

Tudo isso minha mãe foi muito triste e difícil até agora de aceitar mas é o caminho da vida, como o meu pai diria. Queria muito contar o que aconteceu e a minha alegria é que vocês devem estar agora juntos na vida espiritual. Isso me consola porque você deve estar ao lado dele. 

Agora você estaria me dizendo para não sofrer e viver mais, por mim e por ele.

Bjo meu da tua filha 

Veraline 


sábado, 11 de setembro de 2021

Dois Poemas Autorais: Escultura Singular e Porta Aberta

 


ESCULTURA SINGULAR


Não quero julgar 

Nem ser julgado

Somos imperfeitos 

Moldados por Deus. 


Aline Elias



PORTA ABERTA

A noite cai e transforma  

Porta aberta para os deuses 

Que declamam poesia 

Que fazem sonhar e dançar


Aline Elias



quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Quartas de Clarice - Fragmentos e Poemas de Clarice Lispector

Clarice Lispector, nascida na Ucrânia em 1920, nos deixou em 1977 mas continua nos inspirando com sua obra imortal, por isso quero homenagear por algumas semanas a grande escritora, uma das maiores que este mundo já viu! Toda quarta vou postar algum fragmento ou poema seu para que possamos juntos apreciar a grandeza de suas palavras!


ALMA LUZ


Minha alma tem o peso da luz

Tem o peso da música

Tem o peso da palavra nunca dita,

Prestes quem sabe a ser dita

Tem o peso de uma lembrança

Tem o peso de uma saudade

Tem o peso de um olhar

Pesa como pesa uma ausência

E a lágrima que não chorou

Tem o imaterial peso de uma solidão

No meio de outros

...

Clarice Lispector


sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Assim Eu Sigo por Aline Elias

 


ASSIM EU SIGO

O sol acompanha 
O desenrolar do dia 
E vai por um caminho 
Que sigo com os olhos fechados.

Aline Elias

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Dois Poemas Autorais: Para Trás e Queria



PARA TRÁS


Enterrar o luto na areia 

Pedir ajuda aos sete anjos 

Desenterrar novas trilhas 

Colocar o passado 

No caderno de memórias.  

Aline Elias



QUERIA


Não queria a vida 

Queria a bolha 

O canto do quarto 

O corpo esquentando 

O chegar da noite. 

Aline Elias

sábado, 7 de agosto de 2021

Patrimônio por Adalgisa Nery


PATRIMÔNIO


Pesam nos meus ossos

Os meus pensamentos,

Choram nos meus olhos

As visões neles crescidas,

Soluçam no torpor das minhas carnes

Ancestrais desalentos.


Sangram os meus pés

Na inútil andança

Da imaginação liberta,

Pulveriza o meu espírito

A solidão do suicida ignorado

E cresce assustadoramente dentro de mim

A calmaria que precede o fim.


Adalgisa Nery

sexta-feira, 30 de julho de 2021

As Minhas Ilusões por Florbela Espanca



AS MINHAS ILUSÕES


Hora sagrada dum entardecer

De Outono, à beira mar, cor de safira,

Soa no ar uma invisível lira...

O sol é um doente a enlanguescer...


A vaga estende os braços a suster,

Numa dor de revolta cheia de ira,

A doirada cabeça que delira

Num último suspiro, a estremecer!


O sol morreu... e veste luto o mar...

E eu vejo a urna de oiro, a balouçar,

À flor das ondas, num lençol de espuma.


As minhas ilusões, doce tesoiro,

Também as vi levar em urnas de oiro,

No mar da Vida, assim... uma por uma...


Florbela Espanca

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Caminho do Sol por Aline Elias

 


CAMINHO DO SOL


O sol 

Passa pelas nuvens 

Branquinhas

Cinzas claras 

Cinzas escuras 

Pretas

E sai de dentro com o mesmo brilho 


Aline Elias

sexta-feira, 16 de julho de 2021

A Rosa por Deborah Brennand


A ROSA


Não estremeças a mão

desmancha ferozmente, igual ao vento,

estas pétalas de sangue, ainda vivas,

armadas na desordem de uma flor.


Quem fui? Que sou?


Agora, uma senhora antiga

que na tarde silenciosa de abril,

borda sonhos na forma

de perfeita e sangrenta rosa.


E tu quem és agora?


Deborah Brennand

quarta-feira, 7 de julho de 2021

Sincronia por Aline Elias


SINCRONIA

Não vi mas pude ver 

Não  sofri mas senti a dor 

Não ouvi mas escutei 

Não andei mas gastei os sapatos 

Não chorei mas as águas correram

Não estava presente mas está aqui


Aline Elias

sábado, 3 de julho de 2021

Aprendi com a Pandemia por Aline Elias


APRENDI COM A PANDEMIA


Que a saúde de todos está interligada na saúde de cada um. 

Que eu tenho que dizer “te amo” porque posso perder alguém que amo de um dia para o outro. 

Que ter muito medo pode paralisar uma pessoa completamente. 

Que ver a vida pela janela te transforma em neurótico. 

Que dividir a casa com outros pode te ajudar a enfrentar os tempos. 

Que perder um tempo sem fazer nada pode ser proveitoso. 

Que fazer parte de um grupo on line sem que ninguém saiba nada de você pode ser uma experiência muito boa.  

Que ter uma família significa ter muita coisa nessa vida. 

Que um companheiro e parceiro vale todo o ouro do mundo. 

Que aceitar que está velho pode te trazer uma nova consciência.  

Que posso desenvolver novas habilidades . 

Que preciso estar conectada com o meu corpo tanto quanto com a minha mente. 

Que prever a vida e impossível. 

Que a tristeza e o sofrimento te ensinam outro jeito de viver. 

Que ficar longe dos amigos e da família é dolorido. 

Que o outro é imprescindível em minha vida. 

Que a fé e a oração trazem paz a um coração angustiado. 

Que existe um sagrado que fala com cada ser humano. 

Que a minha casa pode ser o mundo e o cantinho do sofá, o melhor do mundo. 

Que não tenho um estômago resistente. 

Que perdi o orgulho de não fazer coisas bobas. 

Que posso me mostrar para quem me ama sem constrangimentos. 

Que o sofrimento do coletivo e igual ao sofrimento de um só homem. 

Que os grupos de amigos são um grande apoio nas travessias.

Que quando a alma sofre o corpo vai para o buraco. 

Que o passado o presente e o futuro estão misturados e circulando sem começo nem fim. 

Que ninguém depende de mim. 

Que posso fazer o mesmo lugar ficar claro e escuro. 

Que preciso agradecer toda a noite pela comida e por cada passo do dia. 

Que o meu destino é regido por contingências.


Aline Elias


quarta-feira, 23 de junho de 2021

Dizeres Íntimos por Florbela Espanca


DIZERES ÍNTIMOS

É tão triste morrer na minha idade!

E vou ver os meus olhos, penitentes

Vestidinhos de roxo, como crentes

Do soturno convento da Saudade!


E logo vou olhar (com que ansiedade! ... )

As minhas mãos esguias, languescentes,

De brancos dedos, uns bebés doentes

Que hão-de morrer em plena mocidade!


E ser-se novo é ter-se o Paraíso,

É ter-se a estrada larga, ao sol, florida,

Aonde tudo é luz e graça e riso!


E os meus vinte e três anos... (Sou tão nova! )

Dizem baixinho a rir: “Que linda a vida! ... ”

Responde a minha Dor: “Que linda a cova! ... ” 


Florbela Espanca

sábado, 19 de junho de 2021

Sonhar por Helena Kolody


Sonhar - Helena Kolody


Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço

Aos páramos azuis da luz e da harmonia;

É ambicionar o céu; é dominar o espaço,

Num vôo poderoso e audaz da fantasia.


Fugir ao mundo vil, tão vil que, sem cansaço,

Engana, e menospreza, e zomba, e calunia;

Encastelar-se, enfim, no deslumbrante paço

De um sonho puro e bom, de paz e de alegria.


É ver no lago um mar, nas nuvens um castelo,

Na luz de um pirilampo um sol pequeno e belo;

É alçar, constantemente, o olhar ao céu profundo.


Sonhar é ter um grande ideal na inglória lida:

Tão grande que não cabe inteiro nesta vida,

Tão puro que não vive em plagas deste mundo.


Helena Kolody


sexta-feira, 11 de junho de 2021

Que Deslize por Ana Cristina Cesar

 

QUE DESLIZE


Onde seus olhos estão

as lupas desistem.

O túnel corre, interminável

pouco negro sem quebra

de estações.

Os passageiros nada adivinham.

Deixam correr

Não ficam negros

Deslizam na borracha

carinho discreto

pelo cansaço

que apenas se recosta

contra a transparente

escuridão.


Ana Cristina Cesar


sábado, 5 de junho de 2021

Poema de Federico García Lorca


A rosa

não buscava a aurora:

quase eterna no ramo

buscava outra coisa.


A rosa

não buscava ciência nem sombra:

confim de carne e sonho,

buscava outra coisa.


A rosa

não buscava a rosa:

imóvel pelo céu

buscava outra coisa.


García Lorca

quarta-feira, 26 de maio de 2021

Sorriso por Aline Elias


SORRISO


Ah aquele dia 

Virou noite surreal 

Amigos divertidos 

Rostos diferentes 

E as meninas 

Vendo o belo do mundo 

Sentadas e borradas 

Não paravam de rir.


Aline Elias

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Os Tambores por Aline Elias

 


OS TAMBORES


Soaram tambores 

Epifania da noite 

Gente italiana 

Os portugueses 

Nômades do deserto 

Guias espirituais 

De cura os curadores 

Awo


Aline Elias

quarta-feira, 12 de maio de 2021

Riviera por Aline Elias

 


RIVIERA


Coloquei o pé na Areia

E vc estava lá 

Passando a rede pela água 

Rindo e esbanjando alegria. 


Tempos que se foram 

Mas que estão lá e cá 

Nada pode ser esquecido 

Se colar na alma


Aline Elias


sexta-feira, 7 de maio de 2021

Da Calma e do Silêncio por Conceição Evaristo


DA CALMA E DO SILÊNCIO


Quando eu morder

a palavra,

por favor,

não me apressem,

quero mascar,

rasgar entre os dentes,

a pele, os ossos, o tutano

do verbo,

para assim versejar

o âmago das coisas.


Quando meu olhar

se perder no nada,

por favor,

não me despertem,

quero reter,

no adentro da íris,

a menor sombra,

do ínfimo movimento.


Quando meus pés

abrandarem na marcha,

por favor,

não me forcem.

Caminhar para quê?

Deixem-me quedar,

deixem-me quieta,

na aparente inércia.

Nem todo viandante

anda estradas,

há mundos submersos,

que só o silêncio

da poesia penetra.


Conceição Evaristo

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Torre de Névoa por Florbela Espanca


TORRE DE NÉVOA


Subi ao alto, à minha Torre esguia,

Feita de fumo, névoas e luar,

E pus-me, comovida, a conversar

Com os poetas mortos, todo o dia.

Contei-lhes os meus sonhos, a alegria

Dos versos que são meus, do meu sonhar,

E todos os poetas, a chorar,

Responderam-me então: “Que fantasia,

Criança doida e crente! Nós também

Tivemos ilusões, como ninguém,

E tudo nos fugiu, tudo morreu! ... ”

Calaram-se os poetas, tristemente...

E é desde então que eu choro amargamente

Na minha Torre esguia junto ao céu! ...


Florbela Espanca

terça-feira, 13 de abril de 2021

O Poema por Aline Elias

 


O POEMA


O que faço com esse poema ?

Coloco tudo dentro dele

Alegria, tristeza

Cabem juntas

Alegria do que vivo

Do que está por vir

Tristeza do que já foi

E nunca mais será


Aline Elias

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Olhar por Aline Elias


OLHAR


Teu olhar anoitece 

Interrogando aleatória cilada 

Nada deveria atrapalhar

Uma corrida de gazela 


A desorientada esperança 

Água gelada e morna 

Enquanto fervem os 

desejos incessantes


O rio vermelho pesado

Ramificado se espalha

Deixa ciente da mortalidade

uma vampira gulosa de juventude


Anseio transformar o rio 

em um mar de pérolas

Mas sou impotente raiz

que veio de seilá e voltará para seionde



Aline Elias

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Mentiras por Florbela Espanca


MENTIRAS


Aí quem me dera uma feliz mentira

Que fosse uma verdade para mim!

J. Dantas


Tu julgas que eu não sei que tu me mentes

Quando o teu doce olhar pousa no meu?

Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?

Qual a imagem que alberga o peito meu?

Ai, se o sei meu amor! Em bem distingo

O bom sonho da feroz realidade...

Não palpita d’amor, um coração

Que anda vogando em ondas de saudade!

Embora mintas bem, não te acredito;

Perpassa nos teus olhos desleais

O gelo do teu peito de granito;

Mas finjo-me enganada, meu encanto,

Que um engano feliz vale bem mais

Que um desengano que nos custa tanto !


Florbela Espanca

sexta-feira, 26 de março de 2021

Lágrimas Ocultas por Florbela Espanca


LÁGRIMAS OCULTAS


Se me ponho a cismar em outras eras

Em que ri e cantei, em que era querida,

Parece-me que foi noutras esferas,

Parece-me que foi numa outra vida...


E a minha triste boca dolorida,

Que dantes tinha o rir das primaveras,

Esbate as linhas graves e severas

E cai num abandono de esquecida!


E fico pensativa, olhando o vago...

Toma a brandura plácida de um lago

O meu rosto de monja de marfim...


E as lágrimas que choro, branca e calma,

Ninguém as vê brotar dentro da alma,

Ninguém as vê cair dentro de mim!


Florbela Espanca

sexta-feira, 19 de março de 2021

Eu-Mulher por Conceição Evaristo

 


Eu-Mulher


Uma gota de leite

me escorre entre os seios.

Uma mancha de sangue

me enfeita entre as pernas.

Meia palavra mordida

me foge da boca.

Vagos desejos insinuam esperanças.

Eu-mulher em rios vermelhos

inauguro a vida.

Em baixa voz

violento os tímpanos do mundo.

Antevejo.

Antecipo.

Antes-vivo

Antes – agora – o que há de vir.

Eu fêmea-matriz.

Eu força-motriz.

Eu-mulher

abrigo da semente

moto-contínuo

do mundo.


Conceição Evaristo



terça-feira, 9 de março de 2021

Êxtase (Bliss) por Katherine Mansfield


Êxtase (Bliss)

por Katherine Mansfield

Traduzido por Ana Cristina Cesar


Apesar dos seus trinta anos, Bertha Young ainda tinha desses momentos em que ela queria correr em vez de caminhar, ensaiar passos de dança subindo e descendo da calçada, sair rolando um aro pela rua, jogar qualquer coisa para o alto e agarrar outra vez em pleno ar, ou apenas ficar quieta e simplesmente rir — rir — à-toa.

O que fazer se aos trinta anos, de repente, ao dobrar uma esquina, você é invadida por uma sensação de êxtase — absoluto êxtase! — como se você tivesse de repente engolido o sol de fim de tarde e ele queimasse dentro do seu peito, irradiando centelhas para cada partícula, para cada extremidade do seu corpo?

Não há como explicar isso sem soar “bêbado e desordeiro”? Que idiota que é a civilização! Para que então ter um corpo se é preciso mantê-lo trancado num estojo, como um violino muito raro?

“Não, isso de violino, não é bem o que eu quero dizer”, pensou Bertha correndo escada acima e catando na bolsa a chave — que ela esquecera, como sempre — e sacudindo a caixa do correio. “Não é bem isso, porque — obrigada, Mary”, disse entrando no vestíbulo, “a babá já voltou?”

“Já, sim senhora.”

“E as frutas, chegaram?”

“Sim senhora. Já chegou tudo.” “Traga as frutas para a sala de jantar por favor que eu quero fazer um arranjo antes de subir.”

Estava escuro e um tanto frio na sala de jantar. Mesmo assim Bertha tirou fora o casaco: impossível suportá-lo apertado contra o corpo mais um minuto que fosse; e o ar frio bateu nos seus braços.

Mas no seu peito ainda havia aquela ardência — aquela irradiação de centelhas que queimavam. Era quase insuportável. Bertha mal ousava respirar com medo de atiçar esse fogo, e no entanto ela respirava, respirava profundamente. Mal ousava se olhar no espelho gelado mas olhou sim, e o espelho devolveu uma mulher radiante, com lábios que sorriam, que tremiam, e olhos grandes, escuros, e um ar de escuta, de expectativa de que alguma coisa… divina acontecesse… que ela sabia que tinha de acontecer… infalivelmente.

Mary trouxe as frutas numa bandeja e uma travessa de louça, e um prato azul muito lindo, com um estranho brilho, como se tivesse sido banhado em leite.

“Posso acender a luz, madame?”

“Não, obrigada. Ainda está dando para ver.”

Havia tangerinas e maçãs tocadas por manchas avermelhadas. Havia pêras amarelas lisas como seda, uvas brancas cobertas por uma floração prateada, e um cacho repleto de uvas vermelhas, comprado especialmente para combinar com os tons do novo tapete da sala. Que idéia pomposa e absurda! Mas na verdade ela havia comprado as uvas exatamente por essa razão. “Eu preciso daquelas uvas vermelhas para puxar o tapete para a mesa”, ela pensara na loja, e o seu desejo lhe parecera então absolutamente sensato.

Ao terminar o arranjo — duas pirâmides de brilhantes formas arredondadas — Bertha se afastou um pouco para apreciar o efeito, que lhe pareceu extraordinário. A mesa escura parecia se dissolver na penumbra e o prato de louça e a travessa azul pareciam soltos no ar. E no seu atual estado de espírito a visão era tão incrivelmente bela… Bertha começou a rir.

“Não, não. Eu estou ficando histérica.” E ela agarrou a bolsa e o casaco e correu escada acima para o quarto do bebê.

A babá estava sentada numa mesa baixa dando de jantar para a pequena B. já de banho tomado. O bebê vestia uma camisolinha branca de flanela e um casaco de lã azul, o cabelo castanho muito fino penteado para cima num rabinho engraçado, e ao ver a mãe começou a pular.

“Vamos lá, meu bem, come tudo como uma boa menina”, disse a babá torcendo a boca de um jeito que Bertha já conhecia e que significava que ela havia chegado outra vez no momento errado.

“Ela ficou boazinha, babá?”

“Ela foi um amor a tarde toda”, murmurou a babá. “A gente foi ao parque e eu sentei e tirei ela do carrinho e apareceu um cachorro enorme e ele deitou a cabeça no meu colo e ela agarrou a orelha dele e deu um puxão, só vendo!”

Bertha queria perguntar se não era perigoso deixar um bebê agarrar a orelha de um cachorro estranho. Mas não ousava, e ficou ali, olhando, as mãos abanando, como a menininha pobre em frente da menininha rica com a boneca.

O bebê olhou para a mãe outra vez e riu tão bonito que Bertha não se conteve:

“Babá, deixa que eu termino de dar a comida dela enquanto

você arruma as coisas do banho.”

“Não é bom para ela mudar de mãos durante a refeição”, respondeu a babá ainda num murmúrio. “Agita, pode perturbar o bebê.”

Que absurdo tudo aquilo. Para que então ter um bebê se é preciso mantê-lo guardado — não num estojo como um violino muito raro — mas nos braços de outra mulher?

“Por favor!”

Muito ofendida, a babá passou o bebê para a mãe.

“Agora, não a excite depois do jantar. A senhora sabe. Depois ela me dá um trabalho!”

Ainda bem! A babá saíra do quarto com as coisas do banho.

“Agora você é só minha, meu tesouro”, disse Bertha, e o bebê se encostou contra o seu colo.

Ela comeu que foi um encanto, fazendo bico para a colher e sacudindo as mãozinhas. As vezes ela não soltava a colher; e outras vezes, assim que Bertha enchia uma colherada, era comida para os quatro ventos.

Terminada a sopa, Bertha se virou para a lareira.

“Você é um amor — um amor!” disse beijando o seu bebê tão quentinho. “Eu gosto muito de você. Eu gosto muito de você.”

E realmente, ela amava tanto a pequena B — seu pescocinho se inclinando para a frente, seus dedinhos do pé que brilhavam transparentes contra o fogo da lareira — e toda aquela sensação de êxtase voltou novamente, e novamente ela não sabia como exprimir aquilo — e o que fazer daquilo.

“Telefone para a senhora” — era a babá que voltava triunfante e agarrava a sua pequena B.

Voando escada abaixo. Era Harry.

“Ah, é você, Bertha? Olha, eu vou chegar atrasado. Pego um táxi e venho assim que puder, e aí você tira o jantar em dez minutos, está bem? Tudo bem?”

“Tudo ótimo. — Harry!”

“Quê?”

O que é que ela tinha a dizer? Nada. Ela não tinha nada a dizer. Ela só queria um contato com ele por um momento. Ela não podia exclamar como louca, “Não foi um dia divino!?”

“Que foi?” martelou a vozinha do outro lado.

“Nada. Entendo”, e Bertha desligou considerando que a civilização era muito mais que meramente idiota.

Havia convidados para o jantar. Os Norman Knights — um casal sólido — ele ia abrir um teatro, ela era entusiasmada por decoração de interiores; o jovem Eddie Warren, que tinha acabado de publicar um pequeno livro de poesia e que todo mundo estava convidando para jantar, e um “achado” de Bertha chamado Pearl Fulton. O que Miss Fulton fazia Bertha não sabia ao certo. Elas haviam se encontrado no clube e Bertha se apaixonara por ela, como se apaixonava sempre por belas mulheres com alguma coisa de estranho.

O mais desconcertante nisso tudo era que apesar de terem se encontrado várias vezes e conversado bastante, Bertha não conseguia entendê-la exatamente. Até um certo ponto Miss Fulton era extraordinariamente, maravilhosamente franca, mas havia um certo ponto — e daí ela não passava.

Havia alguma coisa além? Harry dizia “Não”. Achava-a insípida, e “fria como todas as louras, talvez com um toque de anemia cerebral”. Mas Bertha não podia concordar; pelo menos ainda não.

“O jeito dela se sentar com a cabeça meio inclinada para o lado, e sorrindo, há qualquer coisa por trás disso, Harry, e eu preciso descobrir o que é.”

“Muito provavelmente um bom estômago”, respondia Harry.

Ele fazia questão de provocá-la com respostas no gênero… “fígado congelado, menina”, ou “pura flatulência”, ou “mal dos rins”… e assim por diante. Por alguma estranha razão Bertha gostava disso e quase que o admirava por falar assim.

Bertha passou para a sala de estar e acendeu a lareira; e então, uma a uma, atirou nas poltronas e sofás todas as almofadas que Mary havia arrumado tão cuidadosamente. Que diferença — a sala tomou vida imediatamente. No momento em que ia jogar a última almofada, surpreendeu-se retendo-a contra o corpo e abraçando-a com paixão — com paixão. Mas o fogo não se extinguia no seu peito. Ah, pelo contrário!

As janelas da sala se abriam para uma varanda que dava para o jardim. No extremo oposto, contra o muro, havia uma árvore alta e esguia, em flor, luxuriantemente em flor, perfeita, como se apaziguada contra o céu de jade. Bertha não podia deixar de notar, mesmo a distância, que não havia na árvore nem um broto por abrir, nem uma pétala esmaecida. Embaixo, nos canteiros, tulipas amarelas e vermelhas pareciam inclinar-se sob o próprio peso contra a penumbra da tarde. Um gato cinzento, arrastando-se pelo chão, atravessou furtivamente o gramado, seguido por um gato negro, como se fosse a sua sombra. A passagem dos dois gatos, tão precisa e rápida, provocou em Bertha um estranho arrepio.

“Gatos são coisas aflitivas!” gaguejou, e afastou-se da janela, e começou a andar de um lado para o outro…

Como os junquilhos perfumavam a sala quente! Demais?

Não, não demais. E como se subitamente invadida por alguma coisa, Bertha atirou-se no sofá e apertou os olhos contra as mãos.

“Eu estou feliz demais — demais!” murmurou.

E parecia ver dentro de suas pálpebras a maravilhosa árvore do jardim, completamente em flor, como um símbolo da sua própria vida.

Era verdade — ela tinha tudo. Era jovem. Harry e ela se amavam como nunca, davam-se esplendidamente bem, eram realmente bons companheiros. Ela tinha um bebê adorável. Não havia que se preocupar com dinheiro. A casa e o jardim eram absolutamente satisfatórios. E os amigos — amigos modernos, envolventes, escritores e pintores e poetas ou pessoas interessadas em questões sociais — exatamente os amigos que eles desejavam. E havia livros, e a música, e uma ótima costureirinha recém-descoberta, e eles iam viajar para o exterior no verão, e a cozinheira nova fazia omeletes fantásticas…

“Eu estou ficando louca. Louca!” E ela sentou-se; mas sentia-se tonta, bêbada. Devia ser a primavera. Claro, era a primavera. E agora ela estava tão cansada que não podia nem ao menos se arrastar escada acima para se vestir.

Um vestido branco, um colar de contas de jade, sapatos verdes e meias de seda. Não fora intencional. Ela havia imaginado essa combinação horas antes de ter se deixado ficar diante da janela da sala.

As pregas do vestido farfalharam suavemente entrando no vestíbulo, e Bertha beijou a sra. Norman Knight, que tirava um casaco laranja dos mais divertidos, com uma fileira de macacos pretos em volta da bainha e subindo pela frente.

“Mas por quê? Por quê? Por que a classe média é tão indigesta — tão completamente sem senso de humor? Minha querida, é por pura sorte que eu estou aqui esta noite — Norman foi o meu anjo protetor. Os meus macacos queridos causaram um verdadeiro escândalo no trem — chegou ao ponto do trem inteiro simplesmente me devorar com os olhos. Ninguém riu, ninguém achou graça, nada disso que eu teria adorado. Simplesmente me devoravam com os olhos — e eu me entediei como o diabo.”

“Mas o máximo aconteceu”, continuou Norman ajeitando o seu enorme monóculo de aro de tartaruga, “você não se importa se eu contar, se importa, Careta?” (Em casa e entre amigos eles sempre se tratavam de Careta e Coroa.) “O máximo foi quando ela já saturada se virou para a mulher ao lado e disse: A senhora nunca tinha visto um macaco antes?

“Ah, é verdade!” riu junto a sra. Norman Knight. “Isso não foi absolutamente o máximo?”

E o mais engraçado era que sem o casaco ela se parecia definitivamente com um macaco muito inteligente que até tivesse feito para si mesmo, com cascas de banana, aquele vestido amarelo de seda. E os brincos de âmbar eram exatamente como duas minúsculas castanhas penduradas.

“Trágica queda foi aquela, compatriotas!” recitou Coroa parando em frente do carrinho da pequena B. “Quando o carrinho do bebê chegou à porta -”, e ele abandonou a citação no meio do caminho com um gesto.

A campainha tocou. Era o magro e pálido Eddie Warren, como sempre em estado de aflição aguda.

“Essa é a casa certa, não é?”

“Acho que sim — espero que sim”, respondeu Bertha efusivamente.

“Acabo de ter uma experiência terrível com o motorista do táxi; era um tipo dos mais sinistros, disparando pelas ruas, e eu não conseguia fazer que ele parasse. Quanto mais eu batia mais ele corria. Aquela figura bizarra à luz do luar com a cabeça achatada, todo encolhido em cima do volante…”

E Eddie estremeceu todo ao tirar fora o imenso cachecol de seda. Bertha notou que suas meias também eram brancas — muito atraente.

“Mas que horror!” exclamou.

“Realmente, foi um horror”, disse Eddie e seguiu atrás para a sala. “Eu me vi conduzido através da Eternidade num táxi intemporal…”

Eddie já conhecia os Knights, e até ia escrever uma peça para NK quando o esquema do teatro saísse.

“Então, Warren, como vai a peça?” perguntou Norman Knight deixando cair o monóculo e dando um minuto para o olho voltar à superfície antes de atarrachá-lo outra vez.

E a sra. Norman Knight: “Ah, mas que escolha tão feliz de meias, sr. Warren!”

“Fico tão contente que a senhora tenha gostado”, disse Eddie mirando os próprios pés. “Elas parecem que ficaram muito mais brancas desde que a lua surgiu no céu.” E voltando o rosto fino e angustiado para Bertha: “Tem lua cheia hoje, sabe?”

Ela queria gritar: “Eu sei que tem — eu sei — eu sei!”

Ele era uma pessoa tão sedutora. Mas Careta também era, encolhida junto ao fogo nas suas cascas de banana, e Coroa também, fumando um cigarro e dizendo ao bater a cinza: “Por que deve o noivo sempre tardar?”

“Aí vem ele!” Bang — a porta da frente abriu e fechou. Harry gritou:

“Alô, todo mundo. Desço em cinco minutos”. E todo mundo ouviu que ele zunia escada acima. Bertha não pôde deixar de sorrir; ela sabia o quanto ele gostava de fazer as coisas sob alta pressão. O que importavam cinco minutos afinal de contas? Mas ele fingiria para si mesmo que cinco minutos importavam acima de tudo. E faria questão de entrar na sala extravagantemente calmo e contido.

Harry tinha tanto gosto pela vida. Como ela apreciava isso nele. E a sua paixão pela luta — por procurar em tudo que lhe aparecia pela frente mais um teste do seu poder e da sua coragem — ela também entendia. Mesmo quando, ocasionalmente, diante de quem não o conhecia direito, ele ficava talvez um pouquinho ridículo… Havia horas em que ele entrava em riste na batalha onde não havia batalha alguma… Bertha falava e ria e tinha até se esquecido inteiramente, até o momento em que ele entrou na sala (exatamente como ela imaginara), que Pearl Fulton ainda não havia chegado.

“Será que Miss Fulton se esqueceu?”

“Parece que sim”, disse Harry. “Ela tem telefone?”

“Ah, aí vem um táxi.” E Bertha sorriu com aquele seu arzinho de propriedade que ela sempre assumia quando seus achados eram mulheres novas e misteriosas. “Ela vive dentro de táxis.”

“Vai engordar se continuar assim”, disse Harry friamente, tocando a campainha para o jantar. “Grave perigo que correm as mulheres louras.”

“Harry — por favor”, admoestou Bertha, rindo dele.

Passou-se um outro breve momento, em que todos esperaram, rindo e conversando, um pouco à vontade demais, um pouco descontraídos demais. E então Miss Fulton, toda de prateado, com uma tira de prata prendendo o cabelo louro muito claro, entrou sorrindo, a cabeça ligeiramente inclinada para o lado.

“Me atrasei muito?”

“De jeito nenhum. Entre”, disse Bertha dando-lhe o braço, e passaram para a sala de jantar.”

O que é que havia no contato com aquele braço que atiçava — incendiava — incendiava — o fogo do êxtase que Bertha não sabia como exprimir — e o que fazer daquilo?

Miss Fulton não olhou para ela; mas Miss Fulton raramente olhava diretamente para as pessoas. Suas pálpebras se fechavam pesadamente e aquele estranho meio sorriso ia e vinha dos seus lábios como se ela vivesse de ouvir e não de ver. Mas Bertha sabia, subitamente, como se elas tivessem trocado o olhar mais longo e mais íntimo como se elas tivessem dito uma para a outra:

“Você, também?” — que Pearl Fulton, ao mexer a bela sopa vermelha no prato cinza, estava sentindo exatamente o que ela estava sentindo.

E os outros? Careta e Coroa, Eddie e Harry, colheres subindo e baixando, guardanapos tocando lábios, migalhas de pão, tilintar de garfos e copos e conversas.

“Encontrei com ela no Alpha Show — uma criaturinha esquisitíssima. Além de cortar fora o cabelo, ela parece que também tirou um bom pedaço das pernas e dos braços e do pescoço e do pobre narizinho também.”

“Ela não está muito bem com Michael Oat?”

“Aquele que escreveu Amor e Dentadura?”

“Ele quer escrever uma peça para mim. Ato único. Um único personagem que decide se suicidar. Passa a peça enumerando todas as razões a favor e contra. E justo quando ele se decide por uma coisa ou por outra — pano. Não é má idéia.”

“Como é que a peça vai se chamar? Mal de Estômago’?”

“Se não me engano, eu já dei com a mesma idéia numa revista francesa não muito conhecida aqui.”

Não, eles não sentiam a mesma coisa. Eram todos uns amores uns amores — e ela adorava tê-los ali, na sua mesa, e dar-lhes comida e vinho esplêndidos. Ela até desejaria dizer-lhes que ótimos todos eles eram, e que grupo tão decorativo que formavam, e como pareciam deslanchar uns aos outros e como a lembravam de uma peça de Tchecov!

Harry estava degustando o jantar com prazer. Era parte da sua — não bem da sua natureza, e certamente não da sua pose — bem, ou de uma coisa ou de outra — falar de comida e se vangloriar da sua “paixão desenfreada pela carne branca da lagosta” e “sorvetes de pistache — verdes e frios como as pálpebras das dançarinas egípcias”.

Então ele olhou para ela e disse: “Bertha, este soufflé está admirável” e ela poderia ter chorado de prazer como uma criança.

Por que sentia tanta ternura pelo mundo inteiro nessa noite?

Tudo estava bom — e certo. Tudo que acontecia parecia encher outra vez até a borda a taça transbordante do seu êxtase.

E no fundo da sua mente ainda havia a árvore, que devia estar toda prateada agora, à luz da lua do pobre Eddie querido, prateada como Miss Fulton, que estava ali sentada virando uma tangerina nos seus dedos finos e tão pálidos que pareciam emanar uma luz.

O que era simplesmente incompreensível — e mágico — era como ela havia sido capaz de adivinhar tão perfeitamente e instantaneamente o estado de espírito de Miss Fulton. Nem por um momento ela duvidara de que sabia, e no entanto o que havia de concreto? Menos que nada.

“Acho que isso acontece muito raramente entre mulheres.

Nunca entre homens”, pensou Bertha. “Enquanto eu preparo o café na sala talvez ela me ‘faça um sinal’.”

O que aquilo queria dizer ela não sabia, e o que poderia acontecer depois ela não podia imaginar.

Enquanto essas coisas lhe passavam pela cabeça, ela se viu conversando e rindo. Era preciso conversar para controlar o seu desejo de rir.

“Eu rio ou morro.”

E então ela notou a mania engraçada de Careta de enfiar alguma coisa no decote — como se ali também ela guardasse uma minúscula provisão secreta de castanhas — e Bertha teve de enterrar as unhas nas palmas das mãos para não rir demais.

O jantar terminou finalmente. “Venham ver a minha nova cafeteira”, disse Bertha.

“E só de quinze em quinze dias que nós trocamos de cafeteira”, disse Harry. Careta foi quem deu o braço a Bertha dessa vez; Miss Fulton seguiu atrás, inclinando a cabeça para o lado.”

Na sala de jantar, o fogo havia esmaecido e agora, vermelho, tremeluzindo, parecia, segundo Careta, um “ninho de filhotes de fênix”.

“Não acenda a luz ainda. Está tão bonito.” E lá se enroscou ela novamente junto ao fogo. Sempre com frio, “agora que o mico do realejo está sem o seu casaquinho vermelho de flanela”, pensou Bertha.

Nesse momento Miss Fulton “fez o sinal”.

“Você tem um jardim?” disse a voz calma e sonolenta.

Foi tão sublime da parte dela que Bertha pôde apenas obedecer. Atravessou a sala, abriu as cortinas e as longas janelas.

“Aí está!” disse num alento.

E as duas mulheres se deixaram ficar ali, lado a lado, olhando para a esguia árvore em flor. Embora imóvel, a árvore parecia estender-se para cima, subir, tremer no ar brilhante como a chama de uma vela, e crescer, crescer mais alto diante delas — quase tocar a borda da lua cheia prateada.

Por quanto tempo elas ficaram ali? Era como se as duas estivessem presas naquele círculo de luz extraterrena, entendendo-se uma à outra perfeitamente, criaturas de um outro mundo, perguntando-se o que fazer neste mundo com todo aquele tesouro sublime que queimava dentro do peito e se derramava em flores prateadas pelos seus cabelos e mãos?

Para sempre — ou por um segundo? E Miss Fulton murmurara mesmo “Sim, exatamente isso” ou Bertha havia sonhado?

Então a luz acendeu de repente e Careta fazia café e Harry dizia “Minha querida, não me pergunte nada sobre o bebê. Eu nunca vejo a minha filha. E não vou me interessar o mínimo até o dia em que ela arranjar um amante”, e Coroa tirava por um minuto o olho da estufa e outra vez o metia sob vidro e Eddie

Warren bebia café e pousava a xícara com uma expressão de angústia como se ele tivesse engolido uma aranha e percebido.

“O que eu quero é abrir um espaço para os novos. Londres está simplesmente fervilhando com peças de primeira que ainda não foram escritas. O que eu quero é dizer ‘Aí está o teatro. Vão em frente’.”

“Sabe, meu bem, eu vou fazer a decoração da sala dos Jacob Nathans. Estou tão tentada a montar um esquema ‘peixe frito’, com o espaldar das cadeiras em forma de frigideira e lindas batatas fritas bordadas nas cortinas.”

“O problema com os nossos novos escritores é que eles ainda são românticos demais. Não se pode embarcar num navio sem enjoar e precisar de uma boa bacia… Por que não ter a coragem de pedir a bacia?”

“Um poema pavoroso sobre uma menina que é violada por um mendigo sem nariz num bosque…”

Miss Fulton se afundou na poltrona mais funda e macia e Harry ofereceu cigarros para o grupo.

Pelo jeito dele, ali na frente dela, sacudindo a caixa de prata e dizendo bruscamente: “Egípcios? Turcos? Virgínias? Estão todos misturados”, Bertha percebeu que ela não apenas o irritava; ele definitivamente não gostava dela. E pelo jeito de Miss Fulton dizer “Não, obrigada, não quero fumar”, Bertha decidiu que ela também sentia o mesmo, e estava ofendida.

“Harry, não a deteste. Você está enganado a respeito dela. Ela é maravilhosa, maravilhosa. E além do mais como é que você pode sentir tão diferente a respeito de alguém que significa tanto para mim? Hoje à noite na cama vou tentar contar o que se passou entre nós. O que ela e eu compartilhamos.”

Junto com essas últimas palavras, alguma coisa de estranho e quase aterrorizante cruzou o seu pensamento. Uma coisa cega, que sorria e murmurava: “Logo essas pessoas vão partir. A casa vai ficar quieta, muito quieta. As luzes apagadas. E você e ele sozinhos, juntos, no quarto escuro, na cama quente…”

Bertha levantou-se num ímpeto da poltrona e correu para o piano.

“Que pena que ninguém toca!” falou bem alto. “Que pena que ninguém toca.”

Pela primeira vez na vida Bertha Young desejou o seu marido.

Ela o tinha amado, claro, e tinha estado apaixonada por ele, mas nunca exatamente daquele jeito. E ela havia compreendido, é claro, que ele era diferente. Eles haviam discutido tantas vezes sobre isso. A princípio, ela se preocupara terrivelmente ao descobrir que era tão fria, mas depois de um tempo não parecia mais importar. Eles eram tão francos um com o outro — tão bons companheiros. Nisso residia o melhor de ser moderno.

Mas agora — ardentemente! ardentemente! A palavra doía no seu corpo ardente! Era para aí que a levava toda aquela sensação de êxtase? Mas então, então -

“Minha querida”, disse a sra. Norman Knight, “você sabe o nosso drama. Nós somos vítimas do tempo e dos trens. Moramos em Hampstead. Foi tudo ótimo.”

“Vou com vocês até a porta”, disse Bertha. “Adorei vocês terem vindo. Mas vocês não podem perder o último trem. Que coisa irritante, não é mesmo?”

“Um uísque antes de ir, Knight?” chamou Harry.

“Não obrigado, meu velho.”

Bertha apertou a mão dele mais um pouco em gratidão.

“Boa-noite, boa-noite”, ela gritou do último degrau, sentindo que uma parte dela se despedia deles para sempre.

Ao voltar para a sala, os outros estavam de partida.

“… e você pode vir parte do caminho no meu táxi.”

“Eu fico tão grato de não ter que enfrentar sozinho um outro motorista depois da minha terrível experiência.”

“Vocês podem pegar um táxi num ponto bem no fim da rua.

“Só precisa andar um pouquinho.

“Ainda bem. Vou buscar o meu casaco.”

Miss Fulton dirigiu-se para a entrada e Bertha ia seguindo atrás quando Harry quase que a empurrou.

“Deixa que eu ajudo.”

Bertha sabia que ele estava arrependido da sua indelicadeza — e deixou-o passar. Ele era um menino às vezes — tão impulsivo — tão — simples.

E Eddie e ela sobraram ali perto da lareira.

“Você chegou a ver o novo poema de Bilks chamado Table d’Hôte?” perguntou Eddie suavemente. “É ótimo. Saiu na última Antologia. Você tem uma cópia? Eu queria tanto mostrar para você. Começa com uma linha incrivelmente bela: ‘Por que sempre sopa de tomate?’”

“Tenho”, disse Bertha, e dirigiu-se silenciosamente para a mesa em frente à porta da sala, e Eddie deslizou silenciosamente atrás dela. Apanhou o livrinho e o passou para as mãos dele; nenhum dos dois havia feito um ruído sequer.

Enquanto Eddie folheava o livro, Bertha virou a cabeça em direção ao vestíbulo. E ela viu… Harry com o casaco de Miss Fulton nos braços e Miss Fulton de costas para ele, a cabeça inclinada para o lado. Harry afastou bruscamente o casaco, pôs as mãos nos ombros dela e a virou com violência. Seus lábios diziam: “Eu te adoro”, e Miss Fulton pousou seus dedos cor de luar no rosto dele e sorriu seu sorriso sonolento. As narinas de Harry tremeram; seus lábios se crisparam num esgar horrível ao sussurrarem: “Amanhã”, e com um bater de olhos Miss Fulton disse: “Sim”.

“Aqui está”, disse Eddie. — ‘Por que sempre sopa de tomate?’

É uma verdade tão profunda, você não acha? “Sopa de tomate é uma coisa tão terrivelmente eterna.

“Se você preferir”, disse a voz de Harry, muito alta, do vestíbulo, “eu posso chamar um táxi pelo telefone.”

“Não, não é preciso”, respondeu Miss Fulton, e aproximando-se de Bertha ofereceu-lhe seus dedos muito finos.

“Até-logo. Muito obrigada.”

“Até-logo”, disse Bertha.

Miss Fulton reteve a sua mão por mais um momento.

“Que linda a sua árvore”

E então ela partiu, Eddie atrás, como o gato negro seguindo o gato cinzento.

“Vou trancar a casa”, disse Harry, extravagantemente calmo e contido.

“Sua árvore linda — linda — linda!”

E Bertha apenas correu para as longas janelas dando para o jardim.

“E agora, o que vai acontecer?” exclamou.

Mas a árvore continuava tão bela e florida e imóvel como sempre.


Publicado em Revista STATUS — PLUS, São Paulo, SP, julho de 1981, p. 84–87.



quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Vaidosa por Cesário Verde

 


VAIDOSA


Dizem que tu és pura como um lírio

E mais fria e insensível que o granito,

E que eu que passo aí por favorito

Vivo louco de dor e de martírio.


Contam que tens um modo altivo e sério,

Que és muito desdenhosa e presumida,

E que o maior prazer da tua vida,

Seria acompanhar-me ao cemitério.


Chamam-te a bela imperatriz das fátuas,

a déspota, a fatal, o figurino,

E afirmam que és um molde alabastrino,

E não tens coração como as estátuas.


E narram o cruel martirológio

Dos que são teus, ó corpo sem defeito,

E julgam que é monótono o teu peito

Como o bater cadente dum relógio.


Porém eu sei que tu, que como um ópio

Me matas, me desvairas e adormeces

És tão loira e doirada como as messes

E possuis muito amor... muito "amor próprio".


Poema de Cesário Verde

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Tortura por Florbela Espanca

 


TORTURA


Tirar dentro do peito a Emoção,

A lúcida Verdade, o Sentimento!

— E ser, depois de vir do coração,

Um punhado de cinza esparso ao vento! ...


Sonhar um verso de alto pensamento,

E puro como um ritmo de oração!

— E ser, depois de vir do coração,

O pó, o nada, o sonho dum momento...


São assim ocos, rudes, os meus versos:

Rimas perdidas, vendavais dispersos,

Com que iludo os outros, com que minto!


Quem me dera encontrar o verso puro,

O verso altivo e forte, estranho e duro,

Que dissesse, a chorar, isto que sinto! !


Florbela Espanca

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Recomendo a leitura: Éramos Seis de Maria José Dupré

 “Éramos Seis” é um romance de Maria José Dupré, escritora da década de 1940, e lembra um diário pela forma como a autora retrata o cotidiano em uma sequência cronológica. O olhar está centrado na vida privada da família no que chamamos de realismo doméstico. E a casa também é um personagem da história. 


Dona Lola reorganiza as memórias, nomeia e constrói um significado. Retrata a São Paulo, a cidade, não por uma visão social e sim pelos acontecimentos na família. Na verdade, ela escreve como uma simples dona de casa que gosta de escrever. Uma escrita não rebuscada em uma linguagem mais simples. 

A memória gera significado para a família, mas também gera angústia. São muitas as perdas da Dona Lola, que a partir dessa memória vai elaborando todas elas. Assim ela trabalha o luto e a melancolia. Podemos entrar dentro de cada uma das personagens. Uma autora que tem grande facilidade para contar histórias. E a memória traz também um tempo feliz, de criação, da juventude, dos sonhos. 

Aline Elias


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Recomendo a leitura: A Troca de Beth O'Leary


RECOMENDO A LEITURA:  A TROCA

A eterna questão do conflito de gerações é tratada com delicadez e bom humor nesse excelente livro de Beth O'Leary. 

SINOPSE: Quando a jovem Leena (29 anos) precisa de um tempo fora da agitação de Londres, faz uma acordo com sua avó Eileen (79 anos), que vive em uma pacata cidadezinha do interior: Uma troca de lugares! Como as duas conseguirão se virar em realidades tão diferentes de suas "zonas de conforto"?

A resposta está nas páginas do livro "A Troca", lançado recentemente pela editora Intrínseca aqui na Brasil. Surpresas, lições de vida e diversos temas para reflexão! Recomendo a leitura! 


Aline Elias