segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

QUANDO EU MORRER por Mario de Andrade



QUANDO EU MORRER

Mario de Andrade


Quando eu morrer quero ficar

Quando eu morrer quero ficar,

Não contem aos meus inimigos,

Sepultado em minha cidade,

Saudade.


Meus pés enterrem na rua Aurora,

No Paissandu deixem meu sexo,

Na Lopes Chaves a cabeça

Esqueçam.


No Pátio do Colégio afundem

O meu coração paulistano:

Um coração vivo e um defunto

Bem juntos.


Escondam no Correio o ouvido

Direito, o esquerdo nos Telégrafos,

Quero saber da vida alheia,

Sereia.


O nariz guardem nos rosais,

A língua no alto do Ipiranga

Para cantar a liberdade.

Saudade…


Os olhos lá no Jaraguá

Assistirão ao que há de vir,

O joelho na Universidade,

Saudade…


As mãos atirem por aí,

Que desvivam como viveram,

As tripas atirem pro Diabo,

Que o espírito será de Deus.

Adeus.


quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Castelã de Tristeza por Florbela Espanca


CASTELÃ DE TRISTEZA


Altiva e couraçada de desdém,

Vivo sozinha em meu castelo: a Dor!

Passa por ele a luz de todo o amor...

E nunca em meu castelo entrou alguém!


Castela da Tristeza, vês?... A quem?...

— E o meu olhar é interrogador —

Perscruto ao longe as sombras do sol-pôr...

Chora o silêncio... nada... ninguém vem...


Castelã da Tristeza, porque choras

Lendo, toda de branco, um livro de horas,

À sombra rendilhada dos vitrais?...


À noite, debruçada, p’las ameias,

Porque rezas baixinho?... Porque anseias?...

Que sonho afagam tuas mãos reais?...


quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Pensar por Aline Elias

 


Pensar 


Pensamentos a toa 

Bons e maus 

Aparecem sem avisar 

Devemos escolher

Aceitar os bons , os alegres, os divertidos

Censurar os maus, os tristes, os melancólicos 

Bons sem maus, maus sem bons

Não consigo mais pensar


Aline Elias


segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

O que é – Simpatia por Casimiro de Abreu


O que é – simpatia


A UMA MENINA.


Simpatia – é o sentimento

Que nasce num só momento

Sincero, no coração;

São dois olhares acesos

Bem juntos, unidos, presos

Numa mágica atração.


Simpatia – são dois galhos

Banhados de bons orvalhos

Nas mangueiras do jardim;

Bem longo às vezes nascidos,

Mas que se juntam crescidos

E que se abraçam por fim.


São duas almas bem gêmeas

Que riem no mesmo riso,

Que choram nos mesmos ais;

São vozes de dois amantes,

Duas liras semelhantes,

Ou dois poemas iguais.


Simpatia – meu anjinho,

É o canto do passarinho,

É o doce aroma da flor;

São nuvens dum céu d’Agosto,

É o que m’inspira teu rosto…

– Simpatia – é – quase amor!


Indaiassú – 1857.

Poema de Casimiro de Abreu