sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Vamos falar de Fernando Pessoa

Hoje eu postei nas redes sociais uma poesia de Fernando Pessoa, "Eu Amo Tudo o que Foi", e acho que é uma boa oportunidade de falar um pouco sobre o quanto admiro esse escritor. 

Eu e a estátua do poeta, em Lisboa
Alberto Caieiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares são heterônimos de Fernando António Nogueira Pessoa, nascido em 13 de junho de 1888 e que se tornaria o mais ilimitado poeta português de todos os tempos.

Também em Lisboa, este é o bar que o autor frequentava.
No momento estou lendo o "Livro do Desassossego", uma das maiores do autor, que nela assina como Bernardo Soares. É seu livro que mais se aproxima do gênero "romance". "Dono do mundo em mim, como de terras que não posso trazer comigo", escreve o narrador. 

Introdução do "Livro do Desassossego"
Para finalizar, compartilho com vocês a poesia que citei no início da postagem.

Eu amo tudo o que foi

EU AMO TUDO o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia. 

Fernando Pessoa

Tenham um ótimo e poético final de semana, com muitas leituras!

Aline Elias



quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Três Dias Para Ver por Helen Keller

Hoje, 26 de setembro, foi instituído o Dia Nacional do Surdo, data em que foi inaugurado o INES (Instituto Nacional de Educação de Surdo) em 1857, no Rio de Janeiro! Compartilho com vocês esse belíssimo texto escrito por Helen Keller, a famosa escritora que foi a primeira pessoa surdocega do mundo a conquistar um bacharelado.



Três Dias Para Ver por Helen Keller

Várias vezes pensei que seria uma benção se todo ser humano, de repente, ficasse cego e surdo por alguns dias no princípio da vida adulta. As trevas o fariam apreciar mais a visão e o silêncio lhe ensinaria as alegrias do som.

De vez em quando texto meus amigos que enxergam para descobrir o que eles vêem. Há pouco tempo perguntei a uma amiga que voltava de um longo passeio pelo bosque o que ela observara. “Nada de especial”, foi à resposta.

Como é possível, pensei, caminhar durante uma hora pelos bosques e não ver nada digno de nota? Eu, que não posso ver, apenas pelo tacto encontro centenas de objetos que me interessam. Sinto a delicada simetria de uma folha. Passo as mãos pela casca lisa de uma bétula ou pelo tronco áspero de um pinheiro. Na primavera, toco os galhos das árvores na esperança de encontrar um botão, o primeiro sinal da natureza despertando após o sono do inverno. Por vezes, quando tenho muita sorte, pouso suavemente a mão numa arvorezinha e sinto o palpitar feliz de um pássaro cantando.

Às vezes meu coração anseia por ver tudo isso. Se consigo ter tanto prazer com um simples toque, quanta beleza poderia ser revelada pela visão! E imaginei o que mais gostaria de ver se pudesse enxergar, digamos por apenas três dias.

Eu dividiria esse período em três partes. No primeiro dia gostaria de ver as pessoas cuja bondade e companhias fizeram minha vida valer a pena. Não sei o que é olhar dentro do coração de um amigo pelas “janelas da alma”, os olhos. Só consigo “ver” as linhas de um rosto por meio das pontas dos dedos. Posso perceber o riso, a tristeza e muitas outras emoções. Conheço meus amigos pelo que toco em seus rostos.

Como deve ser mais fácil e muito mais satisfatório para você, que pode ver, perceber num instante as qualidades essenciais de outra pessoa ao observar as sutilezas de sua expressão, o tremor de um músculo, a agitação das mãos. Mas será que já lhe ocorreu usar a visão para perscrutar a natureza íntima de um amigo? Será que a maioria de vocês que enxergam não se limita a ver por alto as feições externas de uma fisionomia e se dar por satisfeita?

Por exemplo, você seria capaz de descrever com precisão o rosto de cinco bons amigos? Como experiência, perguntei a alguns maridos qual a exata cor dos olhos de suas mulheres e muitos deles confessaram, encabulados, que não sabiam.

Ah, tudo que eu veria se tivesse o dom da visão por apenas três dias!

O primeiro dia seria muito ocupado. Eu reuniria todos os meus amigos queridos e olharia seus rostos por muito tempo, imprimindo em minha mente as provas exteriores da beleza que existe dentro deles. Também fixaria os olhos no rosto de um bebê, para poder ter a visão da beleza ansiosa e inocente que precede a consciência individual dos conflitos que a vida apresenta. Gostaria de ver os livros que já foram lidos para mim e que me revelaram os meandros mais profundos da vida humana. E gostaria de olhar nos olhos fiéis e confiantes de meus cães, o pequeno scottie terrier e o vigoroso dinamarquês.

À tarde daria um longo passeio pela floresta, intoxicando meus olhos com belezas da natureza. E rezaria pela glória de um pôr-do-sol colorido. Creio que nessa noite não conseguiria dormir.

No dia seguinte eu me levantaria ao amanhecer para assistir ao empolgante milagre da noite se transformando em dia. Contemplaria assombrado o magnífico panorama de luz com que o Sol desperta a Terra adormecida.

Esse dia eu dedicaria a uma breve visão do mundo, passado e presente. Como gostaria de ver o desfile do progresso do homem, visitaria os museus. Ali meus olhos, veriam a história condensada da Terra -- os animais e as raças dos homens em seu ambiente natural; gigantescas carcaças de dinossauros e mastodontes que vagavam pelo planeta antes da chegada do homem, que, com sua baixa estatura e seu cérebro poderoso, dominaria o reino animal.

Minha parada seguinte seria o Museu de Artes. Conheço bem, pelas minhas mãos, os deuses e as deusas esculpidos da antiga terra do Nilo. Já senti pelo tacto as cópias dos frisos do Paternon e a beleza rítmica do ataque dos guerreiros atenienses. As feições nodosas e barbadas de Homero me são caras, pois também ele conheceu a cegueira.

Assim, nesse meu segundo dia, tentaria sondar a alma do homem por meio de sua arte. Veria então o que conheci pelo tacto. Mais maravilhoso ainda, todo o magnífico mundo da pintura me seria apresentado. Mas eu poderia ter apenas uma impressão superficial. Dizem os pintores que, para se apreciar a arte, real e profundamente, é preciso educar o olhar. É preciso, pela experiência, avaliar o mérito das linhas, da composição, da forma e da cor. Se eu tivesse a visão, ficaria muito feliz por me entregar a um estudo tão fascinante.

À noite de meu segundo dia seria passada no teatro ou no cinema. Como gostaria de ver a figura fascinante de Hamlet ou o tempestuoso Falstaff no colorido cenário elisabetano! Não posso desfrutar da beleza do movimento rítmico senão numa esfera restricta ao toque de minhas mãos. Só posso imaginar vagamente a graça de uma bailarina, como Pavlova, embora conheça algo do prazer do ritmo, pois muitas vezes sinto o compasso da música vibrando através do piso. Imagino que o movimento cadenciado seja um dos espetáculos mais agradáveis do mundo. Entendi algo sobre isso, deslizando os dedos pelas linhas de um mármore esculpido; se essa graça estática pode ser tão encantadora, deve ser mesmo muito mais forte a emoção de ver a graça em movimento.

Na manhã seguinte, ávida por conhecer novos deleites, novas revelações de beleza, mais uma vez receberia a aurora. Hoje, o terceiro dia, passarei no mundo do trabalho, nos ambientes dos homens que tratam do negócio da vida. A cidade é o meu destino.

Primeiro, paro numa esquina movimentada, apenas olhando para as pessoas, tentando, por sua aparência, entender algo sobre seu dia-a-dia. Vejo sorrisos e fico feliz. Vejo uma séria determinação e me orgulho. Vejo o sofrimento e me compadeço.

Caminhando pela 5ª Avenida, em Nova York, deixo meu olhar vagar, sem se fixar em nenhum objeto em especial, vendo apenas um caleidoscópio fervilhando de cores. Tenho certeza de que o colorido dos vestidos das mulheres movendo-se na multidão deve ser uma cena espetacular, da qual eu nunca me cansaria. Mas talvez, se pudesse enxergar, eu seria como a maioria das mulheres – interessadas demais na moda para dar atenção ao esplendor das cores em meio à massa.

Da 5ª Avenida dou um giro pela cidade – vou aos bairros pobres, às fábricas, aos parques onde as crianças brincam. Viajo pelo mundo visitando os bairros estrangeiros. E meus olhos estão sempre bem abertos tanto para as cenas de felicidade quanto para as de tristeza, de modo que eu possa descobrir como as pessoas vivem e trabalham, e compreendê-las melhor.

Meu terceiro dia de visão está chegando ao fim. Talvez haja muitas atividades a que devesse dedicar as poucas horas restantes, mas acho que na noite desse último dia vou voltar depressa a um teatro e ver uma peça cômica, para poder apreciar as implicações da comédia no espírito humano.

À meia-noite, uma escuridão permanente outra vez se cerraria sobre mim. Claro, nesses três curtos dias eu não teria visto tudo que queria ver. Só quando as trevas descessem de novo é que me daria conta do quanto eu deixei de apreciar.

Talvez este resumo não se adapte ao programa que você faria se soubesse que estava prestes a perder a visão. Nas sei que, se encarasse esse destino, usaria seus olhos como nunca usara antes. Tudo quanto visse lhe pareceria novo. Seus olhos tocariam e abraçariam cada objeto que surgisse em seu campo visual. Então, finalmente, você veria de verdade, e um novo mundo de beleza se abriria para você.

Eu, que sou cega, posso dar uma sugestão àqueles que vêem: usem seus olhos como se amanhã fossem perder a visão. E o mesmo se aplica aos outros sentidos. Ouça a música das vozes, o canto dos pássaros, os possantes acordes de uma orquestra, como se amanhã fossem ficar surdos. Toquem cada objeto como se amanhã perdessem o tacto. Sintam o perfume das flores, saboreiem cada bocado, como se amanhã não mais sentissem aromas nem gostos. Usem ao máximo todos os sentidos; goze de todas as facetas do prazer e da beleza que o mundo lhes revela pelos vários meios de contacto fornecidos pela natureza. Mas, de todos os sentidos, estou certa de que a visão deve ser o mais delicioso.

Texto originalmente publicado no Reader’s Digest (Seleções).

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

ENTRA CANTANDO, ENTRA CANTANDO, APOLO! (Machado de Assis)

Bom dia, amigos amantes da boa literatura! Que tal começar essa semana na companhia de nosso grande Machado de Assis?



ENTRA CANTANDO, ENTRA CANTANDO, APOLO!
Machado de Assis, 1891

ENTRA CANTANDO, entra cantando, Apolo!
Entra sem cerimônia, a casa é tua;
Solta versos ao sol, solta-os à lua,
Toca a lira divina, alteia o colo.

Não te embarace esta cabeça nua;
Se não possui as primitivas heras,
Vibra-lhe ainda a intensa vida sua,
E há outonos que valem primaveras.

Aqui verás alegre a casa e a gente,
Os adorados filhos, - terno e brando
Consolo ao coração que os ama e sente.

E ouvirás inda o eco reboando
Do canto dele, que terás presente.
Entra cantando, Apolo, entra cantando.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Brasil Independente por Aline Elias

Escrevi o texto a seguir no ano passado, mas acredito que continua atual, e com o feriado que tivemos alguns dias atrás, acredito que vale a pena a reflexão...

Independência ou Morte, do pintor paraibano Pedro Américo (óleo sobre tela, 1888).
Brasil Independente

O que a nossa memória pessoal diz desse Brasil,  a memoria de nossa família, a do bairro em que moramos? 

Gostaríamos de conhecer o inimigo para poder lutar contra ele mas a memória nos culpa. Não conseguimos reconhecer porque eles nos iludiram sempre, em cada ano de votação, e por tanto tempo esperamos a pobreza diminuir, o bairro melhorar, a cidade respirar, o país tornar-se justo. 

Procuramos um messias, um salvador, e encontramos malfeitores para quem entregamos o controle  de nossas vidas. A parte explica o todo. O que sentimos hoje, cada um de nós, é o mesmo que sente o todo. Incapacidade, falta de confiança, e um grande medo: de nossos políticos, da nossa cidade, do bairro, de nós mesmos. 

Que possamos partir da escuridão para a claridade e estejamos solidários e conscientes no futuro com as pessoas, o bairro, a cidade, o país.

Aline Elias

sábado, 8 de setembro de 2018

Parabéns por Aline Elias

Alguns dias atrás completei mais um ano de vida, e através da reflexão sobre envelhecer me veio a inspiração para esse texto que compartilho com vocês!


Parabéns. 

Se eu não tivesse envelhecido 
Não derramaria essa lágrima de orgulho pelas minhas crianças. 
E nem pensaria em abraçar um cão ou 
rir quando  lembrasse dos mortos. 
Não deixaria o corpo  arrear sentindo prazer nessa exaustão
Enxergaria com olhos de bondade todas 
as minhas delicadezas. 
Arrastaria os acertos e os erros sem saber que o passado vira pedra.
Lamentaria os idos de juventude
esquecendo do amor de agora. 
Se eu não tivesse envelhecido não estaria aqui para viver.

Aline Elias

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Pontos de Vista (Eduardo Galeano)

Eduardo Galeano nasceu em 1940 e completaria hoje 68 anos. O escritor e jornalista uruguaio nos deixou em 2015, mas deixou um grande legado que permanecerá por muitas e muitas gerações. Compartilho com vocês um trecho retirado do livro "De Pernas Pro Ar" (1999, L&PM):

Foto: Retirada do site jornalggn.com.br / Crédito: Eugenio Mazzinghi
Pontos de vista/2

Do ponto de vista do sul, o verão do norte é inverno.
Do ponto de vista de uma minhoca, um prato de espaguete é uma
orgia.
Onde os hindus veem uma vaca sagrada, outros veem um grande
hambúrguer.
Do ponto de vista de Hipócrates, Galeno, Maimônides e Paracelso,
havia uma enfermidade no mundo chamada indigestão, mas não havia uma
enfermidade chamada fome.
Do ponto de vista de seus vizinhos no povoado de Cardona, o Toto
Zaugg, que andava com a mesma roupa no verão e no inverno, era um
homem admirável:
– O Toto nunca tem frio – diziam.
Ele não dizia nada. Frio ele tinha, o que não tinha era agasalho.

Eduardo Galeano em De Pernas Pro Ar