sexta-feira, 28 de julho de 2023

Um Sonho por Edgar Allan Poe

 


UM SONHO

SONHEI, entre visões da noite escura,
com a alegria morta, mas meu sonho
de vida e luz me despertou, tristonho,
com o coração partido de amargura.

Ah! que não vale um sonho à luz do dia
para aquêle que os olhos traz cravados
nas coisas que o rodeiam e os desvia
para tempos passados?

Aquêle santo sonho, sonho santo,
enquanto o mundo repelia o pária,
deu-me o confôrto, como luz de encanto
a conduzir uma alma solitária.

E embora a luz, por entre a tempestade
e a noite, assim tremesse, tão distante,
que poderia haver de mais brilhante
no claro sol da estrêla da Verdade?


A DREAM

In visions of the dark night
I have dreamed of joy departed —
But a waking dream of life and light
Hath left me broken-hearted.

Ah! what is not a dream by day
To him whose eyes are cast
On things around him with a ray
Turned back upon the past?

That holy dream — that holy dream,
While all the world were chiding,
Hath cheered me as a lovely beam
A lonely spirit guiding.

What though that light, thro' storm and night,
So trembled from afar —
What could there be more purely bright
In Truth's day-star?

- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

sexta-feira, 21 de julho de 2023

Horas Rubras por Florbela Espanca

 



HORAS RUBRAS

Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas...

Oiço as olaias rindo desgrenhadas...
Tombam astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p’las estradas...

Os meus lábios são brancos como lagos...
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras...

Sou chama e neve branca e misteriosa...
e sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!

Florbela Espanca

sexta-feira, 14 de julho de 2023

O ÚLTIMO POEMA por Manoel Bandeira

 


O ÚLTIMO POEMA

Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Manoel Bandeira

sexta-feira, 7 de julho de 2023

Mania por Aline Elias

 


Mania

As histórias pulam dentro da minha cabeça.  Aparecem e de repente estou dentro delas sem controle, montando e desmontando, juntando palavras. Ontem estava ao lado de alguém sem palavras. No jantar, com um grupo de amigos que encontro uma vez por mês, a namorada de um deles o acompanha quieta, alheia. Presente fisicamente e enquanto todos conversam, discursam, falam do cotidiano, do trabalho, da família, de si próprios,  ela continua calada. Chega quase a cochilar com todo o barulho de conversa à sua volta. Esconde as palavras, fechadas a sete chaves. Um dia ela não vai agüentar e vai dizer: agora é minha vez.  Espero ansioso por uma única frase mas ela não diz nada e quando chega o momento de se despedir acena com a mão. Acho que sabia que iria escrever o que ela falasse, Posso inventar que ela discutiu com o meu amigo e disse que nunca mais irá a esses jantares. Ou que comentou que a comida é cara e o grupo é esnobe. Poderia também ter dito que sente inveja da nossa amizade porque não tem amigas que a acompanhem em jantares mensais. Fiquei incomodado com o fato dela não falar, uma falta de atenção, quase desprezo. Mais de meia noite e estou escrevendo o que ninguém vai ler.  Coisa de maluco.

Aline Elias