quinta-feira, 21 de junho de 2018

Amarrando a Copa

Vejo a cena como se fosse hoje. Os últimos acordes do piano soavam aflitos com a professora ao lado do banquinho, sentada na cadeira e com os óculos de perto analisando o mais perto possível as minhas mãos. 

Abaixa o pulso menina.  

Para a Dona Haydee, a melhor professora do bairro, todos os seus alunos eram futuros virtuoses. Eu tenho lá comigo algumas dúvidas porque sou boa em tocar escalas, mas surda demais para identificar notas sem partitura. Nessas noites que antecedem os jogos da copa saio do conservatório com dor nos ouvidos. Mas não posso faltar nas aulas.
E coloco os bofes de fora descendo e subindo ladeira e percorrendo umas dez quadras até chegar em casa. E ela estará sentada no canto do sofá debaixo da escada, rodeada de linhas, agulhas, tesoura e tecido para fazer roupa ou cortina com os olhos grudados na TV branca e preta. 

Senta que acabou de começar e depois fazemos um lanche. 

E pego a caneta e picoto papéis rapidamente porque parece que o jogo será difícil e vamos precisar do ritual de amarrar os jogadores do time adversários. Os quatro olhos, ou melhor seis, contando as lentes dos meus óculos, não desgrudam da tela. Estamos sozinhas e não entendemos de futebol, além disso está difícil escrever esses nomes de estrangeiros repletos de consoantes. Mas ela incentiva: 

Escreve rápido filha, do jeito que você entende.

Quando o jogo acaba a sala está repleta de papeizinhos com nome ilegíveis amarrados em fitas. 

Amarradas as mãos do goleiro da Itália.

E o próximo jogo será melhor que esse, impossível perder com Pelé jogando como um deus nessa copa dos sonhos de 1970. 

Como será a copa de 2018? 

Não sei, mas para evitar uma derrota, sento no canto do sofá e picoto os papéis e corto as fitas amarrando e amarrando e amarrando. Esse pode ser um jeito, quem sabe de chamar o sonho de volta.  

Aline Elias

terça-feira, 12 de junho de 2018

Dia dos Namorados: Trecho de Romeu e Julieta

Hoje é comemorado o Dia dos Namorados, em homenagem a essa data, que tal uma lida em uma declaração de um dos personagens mais românticos de todos os tempos?

Só ri das cicatrizes quem ferida nunca sofreu no corpo.
(Julieta aparece na janela.)
Mas silêncio!
Que luz se escoa agora da janela?
Será Julieta o sol daquele oriente?
Surge, formoso sol, e mata a lua cheia de inveja,
que se mostra pálida e doente de tristeza,
por ter visto que, como serva, és mais formosa que ela.
Deixa, pois, de servi-la; ela é invejosa.
Somente os tolos usam sua túnica de vestal,verde e doente; joga-a fora.
Eis minha dama.
Oh, sim! é o meu amor.
Se ela soubesse disso!
Ela fala; contudo, não diz nada. Que importa? Com o olhar está falando.
Vou responder-lhe. Não; sou muito ousado; não se dirige a mim: duas estrelas do céu, as mais formosas, tendo tido qualquer ocupação, aos olhos dela pediram que brilhassem nas esferas, até que elas voltassem.
Que se dera se ficassem lá no alto os olhos dela, e na sua cabeça os dois luzeiros?
Suas faces nitentes deixariam corridas as estrelas, como o dia faz com a luz das candeias, e seus olhos tamanha luz no céu espalhariam, que os pássaros, despertos, cantariam.
Vede como ela apoia o rosto à mão.
Ah! se eu fosse uma luva dessa mão, para poder tocar naquela face!

Trecho de "Romeu e Julieta" de William Shakespeare

quinta-feira, 7 de junho de 2018

A Primeira Festa Junina

Daniel acaba de entrar na escola emburrado porque é dia de treinar a quadrilha. Enquanto esperam a professora, a avó olha em volta e diz ao neto: “As festas juninas trazem de volta o sítio de meu pai. Você quer ouvir como foi a minha primeira festa junina?” e ele responde “sim quero sim”!

Bom, era 1965 ou 1963, um fim de semana que nunca irei esquecer. Eu era uma menina da cidade como você e não conhecia a vida do campo, não sabia nada, subir em árvores, entrar em lago, cuidar dos animais. Meu pai comprou um sítio muito simples e construiu uma casa no alto da colina que não tinha luz e a água era puxada do poço. Na primeira vez que conheci o sítio era tempo de São Joao e meu pai, o seu bisavô, abriu a porta da casa orgulhoso e eu agarrada atrás dele fui logo procurando o quarto.

Passei a tarde fugindo dos carneiros que entravam e saíam da cozinha. Depois grudei na janela observando qualquer coisa viva que se movia:  galinhas, coelhos, formigas, aranhas, mosquitos... Os meninos saíram com a espingarda para caçar e voltaram aterrorizados porque assim que dispararam o primeiro tiro viram alguém meio criança e meio bicho gritando e expulsando eles da mata. A caseira, que depenava uma galinha na cozinha, disse que eles tinham encontrado o Curupira e que ele perseguia até a morte qualquer tipo de caçador. E ela não parou mais de falar sobre os seres estranhos que habitavam aquelas matas:  a Cuca, o Saci-Pererê, que fumava cachimbo e tinha somente uma perna, a cobra Boitatá, que vivia nos riachos...

Quando ela acabou de contar já era noite e os meus olhos míopes estatelados não enxergavam mais nada, nem fora nem dentro da casa. Os meninos guardaram a espingarda e eu corri para a cama e me enfiei debaixo da coberta imaginando que até os mosquitos daquele lugar poderiam ter força para desatar os laços do mosquiteiro. Ah o medo... o medo faz a gente pensar em coisas idiotas. No dia seguinte abriu o sol e quando acordei todos trabalhavam para a festa junina. Os cheiros que vinham da comida: o bolo de milho saindo do forno, a pipoca pulando da panela... a canjica, o curau, a pamonha, os amendoins para descascar... e o pessoal foi chegando para a festa!

Chegou a noite e acenderam uma grande fogueira. Alguém tocava uma sanfona, e o meu pai falou baixinho “fiz essa festa para você”.  E fomos comendo, bebendo, cantando, dançando. Quando olhei para dentro da mata não tive medo, entendi que quem protege a terra ama as crianças.  No dia seguinte fomos embora e guardei na lembrança aquela primeira festa junina.

“Vovó e o Curupira apareceu de novo? Ou o Saci? ” – perguntou Daniel.

“Ah, quando voltava ao sitio, sempre que entrava na mata levava um pouco de fumo de corda para o saci e algum presente para o curupira, já a cobra Boitatá é minha companheira das águas até hoje. Amigos especiais a gente nunca esquece, nos acompanham pela vida. Por isso, vá dançar Daniel, aproveite a festa para fazer novos amigos, nunca se sabe quem pode aparecer... ” – respondeu a vovó.