quinta-feira, 7 de junho de 2018

A Primeira Festa Junina

Daniel acaba de entrar na escola emburrado porque é dia de treinar a quadrilha. Enquanto esperam a professora, a avó olha em volta e diz ao neto: “As festas juninas trazem de volta o sítio de meu pai. Você quer ouvir como foi a minha primeira festa junina?” e ele responde “sim quero sim”!

Bom, era 1965 ou 1963, um fim de semana que nunca irei esquecer. Eu era uma menina da cidade como você e não conhecia a vida do campo, não sabia nada, subir em árvores, entrar em lago, cuidar dos animais. Meu pai comprou um sítio muito simples e construiu uma casa no alto da colina que não tinha luz e a água era puxada do poço. Na primeira vez que conheci o sítio era tempo de São Joao e meu pai, o seu bisavô, abriu a porta da casa orgulhoso e eu agarrada atrás dele fui logo procurando o quarto.

Passei a tarde fugindo dos carneiros que entravam e saíam da cozinha. Depois grudei na janela observando qualquer coisa viva que se movia:  galinhas, coelhos, formigas, aranhas, mosquitos... Os meninos saíram com a espingarda para caçar e voltaram aterrorizados porque assim que dispararam o primeiro tiro viram alguém meio criança e meio bicho gritando e expulsando eles da mata. A caseira, que depenava uma galinha na cozinha, disse que eles tinham encontrado o Curupira e que ele perseguia até a morte qualquer tipo de caçador. E ela não parou mais de falar sobre os seres estranhos que habitavam aquelas matas:  a Cuca, o Saci-Pererê, que fumava cachimbo e tinha somente uma perna, a cobra Boitatá, que vivia nos riachos...

Quando ela acabou de contar já era noite e os meus olhos míopes estatelados não enxergavam mais nada, nem fora nem dentro da casa. Os meninos guardaram a espingarda e eu corri para a cama e me enfiei debaixo da coberta imaginando que até os mosquitos daquele lugar poderiam ter força para desatar os laços do mosquiteiro. Ah o medo... o medo faz a gente pensar em coisas idiotas. No dia seguinte abriu o sol e quando acordei todos trabalhavam para a festa junina. Os cheiros que vinham da comida: o bolo de milho saindo do forno, a pipoca pulando da panela... a canjica, o curau, a pamonha, os amendoins para descascar... e o pessoal foi chegando para a festa!

Chegou a noite e acenderam uma grande fogueira. Alguém tocava uma sanfona, e o meu pai falou baixinho “fiz essa festa para você”.  E fomos comendo, bebendo, cantando, dançando. Quando olhei para dentro da mata não tive medo, entendi que quem protege a terra ama as crianças.  No dia seguinte fomos embora e guardei na lembrança aquela primeira festa junina.

“Vovó e o Curupira apareceu de novo? Ou o Saci? ” – perguntou Daniel.

“Ah, quando voltava ao sitio, sempre que entrava na mata levava um pouco de fumo de corda para o saci e algum presente para o curupira, já a cobra Boitatá é minha companheira das águas até hoje. Amigos especiais a gente nunca esquece, nos acompanham pela vida. Por isso, vá dançar Daniel, aproveite a festa para fazer novos amigos, nunca se sabe quem pode aparecer... ” – respondeu a vovó.

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