quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Natal à Italiana por Aline Elias

 



A esperança veio sem alarde, num passeio de carro, no silêncio que acolhe. Houve aflição, houve tristeza — e também abraço. Porque o amor não some nos dias difíceis, ele permanece. E sentir isso, mesmo em meio ao peso, já é Natal.


Aline Elias

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Energia por Aline Elias




Energia

Intuição ou saber

Escutar sem voz

Olhar vai e penetra

O coração delata

O gesto demonstra

A mão retrai

Outra direção

Espaço apertou

Asfixiado e escuro

Falta de vida

Sair para respirar


Aline Elias

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Celebremos o Lúdico por Aline Elias


Na noite de hoje, deixei que a fantasia me conduzisse.

As corujas e os pirilampos dançavam no fundo da minha memória, como no velho refrão que sempre me encantou. Há algo nessa mistura de encantos — sacis, fadas, luas azuis — que me faz lembrar que também carregamos um pouco de magia no peito.

Olhei para essa ilustração das pequenas bruxinhas feitas para meu livro "O Coelho Wishy e a Bruxa Catadeira", tão cheias de cor, travessura e inocência, e senti que elas representam algo que às vezes esquecemos: a alegria de brincar com nossos próprios mistérios. A leveza de existir sem explicações. A festa que pulsa mesmo quando a realidade insiste em ser sisuda.

Na infância, a gente acredita nas coisas invisíveis. Na vida adulta, continuamos carregando essas sombras luminosas — só que aprendemos a chamá-las de imaginação, intuição, poesia. Mas, no fundo, são as mesmas fagulhas que iluminam nossas noites internas.

Escrevo este pequeno texto para lembrar disso:

que a magia não desapareceu.

Que as danças que nos habitam continuam ali.

Que ainda podemos celebrar o que é lúdico, ancestral, selvagem e doce — mesmo que seja apenas por um instante.

Hoje, deixei que minha própria lua interna iluminasse a dança, a roda, a festa.


Aline Elias

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Matéria Transformada por Aline Elias

 


Os vulcões vomitam fogo, transformam a matéria.
Homens de pedras e cinzas... e continuam eternos.

Esse pequeno poema nasceu de uma imagem que me atravessou: a força do fogo que destrói e cria ao mesmo tempo. Penso que somos um pouco assim — feitos de explosões, de quedas e de renascimentos.

Há momentos em que tudo parece ruir, mas é justamente aí que algo novo começa a se formar. A transformação é sempre dolorosa, mas também necessária. Das cinzas, brota uma nova forma, uma nova versão de nós mesmos — mais bruta, mais consciente, mais viva.

Escrevi esses versos como quem observa a própria erupção interior. Porque, no fim, é isso que a poesia faz: transborda o que estava preso e transforma em matéria eterna o que antes era só sentimento.

🔥 Matéria transformada. Poesia que resiste.


Aline Elias

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Quem Atira a Primeira Pedra por Aline Elias

Muitas vezes penso sobre o julgamento. Percebo que, na maioria das vezes, quem se apressa em apontar o dedo é justamente quem mais carrega erros e arrependimentos. É como se a sombra do passado pesasse tanto que a única forma de aliviar fosse lançar pedras no caminho dos outros.

Escrevi este poema como um desabafo e também como um lembrete: a felicidade incomoda quem não consegue mais encontrá-la em si. A luz de ontem não ilumina o hoje, quando a alma insiste em se prender às sombras.


Eu escrevo porque acredito que a poesia nos ajuda a enxergar além. Escrevo porque, no fundo, também quero me lembrar de não me deixar aprisionar pela sombra do que já passou. 


Aline Elias

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Nihil Novum por Florbela Espanca


NIHIL NOVUM


Na penumbra do pórtico encantado

De Bruges, noutras eras, já vivi;

Vi os templos do Egito com Loti;

Lancei flores, na Índia, ao rio sagrado.


No horizonte de bruma opalizado,

Frente ao Bósforo errei, pensando em ti!

O silêncio dos claustros conheci

Pelos poentes de nácar e brocado...


Mordi as rosas brancas de Ispaã

E o gosto a cinza em todas era igual!

Sempre a charneca bárbara e deserta,


Triste, a florir, numa ansiedade vã!

Sempre da vida ? o mesmo estranho mal,

E o coração ? a mesma chaga aberta!


Florbela Espanca

sexta-feira, 20 de junho de 2025

Quando Falamos Sozinhos por Aline Elias

Quando Falamos Sozinhos

As decepções e o peito aberto

Sem conseguir entender

E quando falamos sozinhos

Ouvimos o que Deus quer dizer.



Há dias em que a dor parece não fazer sentido.

Momentos em que tudo o que sentimos é um eco do que não foi dito, do que ficou preso no peito, sem tradução. Nessas horas, muitas vezes, a única companhia que resta somos nós mesmos — e o silêncio.

Mas é justamente nesse silêncio, nesse sussurro entre uma pergunta e outra, que algo maior se revela.

Falar sozinho não é loucura, é escuta.

É quando nos despimos das máscaras e abrimos espaço para ouvir o que não se diz com palavras: um consolo, um sinal, um sopro divino.

Esse poema nasceu de um instante assim.

De um diálogo entre o que dói e o que cura.

Se você também fala consigo de vez em quando, não se preocupe. Pode ser que você esteja, sem perceber, ouvindo o que Deus quer dizer.

Aline Elias

sexta-feira, 16 de maio de 2025

Da Morte por Hilda Hilst




Não me procures ali

Onde os vivos visitam

Os chamados mortos.

Procura-me

Dentro das grandes águas

Nas praças

Num fogo coração

Entre cavalos, cães,

Nos arrozais, no arroio

Ou junto aos pássaros

Ou espelhada

Num outro alguém,

Subindo um duro caminho

Pedra, semente, sal

Passos da vida.

Procura-me ali.

Viva.


Hilda Hilst

sexta-feira, 25 de abril de 2025

Poetas por Florbela Espanca

Há poemas que nos atravessam como brisa triste numa noite silenciosa. "Poetas", de Florbela Espanca, é um deles.

Cada verso carrega uma delicadeza cortante, como quem conhece a dor e a transforma em flor.

Florbela fala das almas dos poetas como violetas — frágeis, secretas, incompreendidas.

Ela reconhece na poesia não apenas uma arte, mas uma forma de existir, de sentir o mundo de um jeito que nem sempre encontra tradução fora do verso.

Leia com calma. Deixe o poema habitar você por um instante.



POETAS

por Florbela Espanca


Ai as almas dos poetas

Não as entende ninguém;

São almas de violetas

Que são poetas também.

Andam perdidas na vida,

Como as estrelas no ar;

Sentem o vento gemer

Ouvem as rosas chorar!

Só quem embala no peito

Dores amargas e secretas

É que em noites de luar

Pode entender os poetas

E eu que arrasto amarguras

Que nunca arrastou ninguém

Tenho alma para sentir

A dos poetas também!


Poesia é isso: uma alma falando baixo e profundo.


Você também sente assim? ✨


Aline Elias 

sexta-feira, 14 de março de 2025

Acabou por Aline Elias

 


Acabou 


Para alguém ganhar 

Outros tem que perder 

Todos os danos 

Justificáveis 

Soldados se vão 

Passado de guerra

Nascem da lama 

Ensanguentada 

Os novos loucos 

Heróis do futuro.


Aline Elias

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

A Fuga - Aline Elias


A FUGA


Poesia é assim 

Ela chega e foge 

Você corre atrás das palavras 

Que vem na cabeça 

E depois vão embora 

Assim como os dias 

Não podemos guardar 

Mesmo que esteja no papel 

Ela já se foi com palavra e tudo 


Aline Elias

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Respeitando o Tempo - Aline Elias


RESPEITANDO O TEMPO


Trezentos anos 

Fotos na parede 

Nomes nos barris 

Uva que vira aceto 

Vinte e cinco anos 

Líquidos e estações 

Trabalho de avó para

Respeitando o tempo 

Alquimia e a transformação. 


Aline Elias