A esperança veio sem alarde, num passeio de carro, no silêncio que acolhe. Houve aflição, houve tristeza — e também abraço. Porque o amor não some nos dias difíceis, ele permanece. E sentir isso, mesmo em meio ao peso, já é Natal.
Aline Elias
A esperança veio sem alarde, num passeio de carro, no silêncio que acolhe. Houve aflição, houve tristeza — e também abraço. Porque o amor não some nos dias difíceis, ele permanece. E sentir isso, mesmo em meio ao peso, já é Natal.
Aline Elias
Energia
Intuição ou saber
Escutar sem voz
Olhar vai e penetra
O coração delata
O gesto demonstra
A mão retrai
Outra direção
Espaço apertou
Asfixiado e escuro
Falta de vida
Sair para respirar
Aline Elias
Na noite de hoje, deixei que a fantasia me conduzisse.
As corujas e os pirilampos dançavam no fundo da minha memória, como no velho refrão que sempre me encantou. Há algo nessa mistura de encantos — sacis, fadas, luas azuis — que me faz lembrar que também carregamos um pouco de magia no peito.
Olhei para essa ilustração das pequenas bruxinhas feitas para meu livro "O Coelho Wishy e a Bruxa Catadeira", tão cheias de cor, travessura e inocência, e senti que elas representam algo que às vezes esquecemos: a alegria de brincar com nossos próprios mistérios. A leveza de existir sem explicações. A festa que pulsa mesmo quando a realidade insiste em ser sisuda.
Na infância, a gente acredita nas coisas invisíveis. Na vida adulta, continuamos carregando essas sombras luminosas — só que aprendemos a chamá-las de imaginação, intuição, poesia. Mas, no fundo, são as mesmas fagulhas que iluminam nossas noites internas.
Escrevo este pequeno texto para lembrar disso:
que a magia não desapareceu.
Que as danças que nos habitam continuam ali.
Que ainda podemos celebrar o que é lúdico, ancestral, selvagem e doce — mesmo que seja apenas por um instante.
Hoje, deixei que minha própria lua interna iluminasse a dança, a roda, a festa.
Aline Elias
Os vulcões vomitam fogo, transformam a matéria.
Homens de pedras e cinzas... e continuam eternos.
Esse pequeno poema nasceu de uma imagem que me atravessou: a força do fogo que destrói e cria ao mesmo tempo. Penso que somos um pouco assim — feitos de explosões, de quedas e de renascimentos.
Há momentos em que tudo parece ruir, mas é justamente aí que algo novo começa a se formar. A transformação é sempre dolorosa, mas também necessária. Das cinzas, brota uma nova forma, uma nova versão de nós mesmos — mais bruta, mais consciente, mais viva.
Escrevi esses versos como quem observa a própria erupção interior. Porque, no fim, é isso que a poesia faz: transborda o que estava preso e transforma em matéria eterna o que antes era só sentimento.
🔥 Matéria transformada. Poesia que resiste.
Aline Elias
Muitas vezes penso sobre o julgamento. Percebo que, na maioria das vezes, quem se apressa em apontar o dedo é justamente quem mais carrega erros e arrependimentos. É como se a sombra do passado pesasse tanto que a única forma de aliviar fosse lançar pedras no caminho dos outros.
Escrevi este poema como um desabafo e também como um lembrete: a felicidade incomoda quem não consegue mais encontrá-la em si. A luz de ontem não ilumina o hoje, quando a alma insiste em se prender às sombras.
Eu escrevo porque acredito que a poesia nos ajuda a enxergar além. Escrevo porque, no fundo, também quero me lembrar de não me deixar aprisionar pela sombra do que já passou.
Aline Elias
Na penumbra do pórtico encantado
De Bruges, noutras eras, já vivi;
Vi os templos do Egito com Loti;
Lancei flores, na Índia, ao rio sagrado.
No horizonte de bruma opalizado,
Frente ao Bósforo errei, pensando em ti!
O silêncio dos claustros conheci
Pelos poentes de nácar e brocado...
Mordi as rosas brancas de Ispaã
E o gosto a cinza em todas era igual!
Sempre a charneca bárbara e deserta,
Triste, a florir, numa ansiedade vã!
Sempre da vida ? o mesmo estranho mal,
E o coração ? a mesma chaga aberta!
Florbela Espanca
As decepções e o peito aberto
Sem conseguir entender
E quando falamos sozinhos
Ouvimos o que Deus quer dizer.
Há dias em que a dor parece não fazer sentido.
Momentos em que tudo o que sentimos é um eco do que não foi dito, do que ficou preso no peito, sem tradução. Nessas horas, muitas vezes, a única companhia que resta somos nós mesmos — e o silêncio.
Mas é justamente nesse silêncio, nesse sussurro entre uma pergunta e outra, que algo maior se revela.
Falar sozinho não é loucura, é escuta.
É quando nos despimos das máscaras e abrimos espaço para ouvir o que não se diz com palavras: um consolo, um sinal, um sopro divino.
Esse poema nasceu de um instante assim.
De um diálogo entre o que dói e o que cura.
Se você também fala consigo de vez em quando, não se preocupe. Pode ser que você esteja, sem perceber, ouvindo o que Deus quer dizer.
Aline Elias
Não me procures ali
Onde os vivos visitam
Os chamados mortos.
Procura-me
Dentro das grandes águas
Nas praças
Num fogo coração
Entre cavalos, cães,
Nos arrozais, no arroio
Ou junto aos pássaros
Ou espelhada
Num outro alguém,
Subindo um duro caminho
Pedra, semente, sal
Passos da vida.
Procura-me ali.
Viva.
Hilda Hilst
Há poemas que nos atravessam como brisa triste numa noite silenciosa. "Poetas", de Florbela Espanca, é um deles.
Cada verso carrega uma delicadeza cortante, como quem conhece a dor e a transforma em flor.
Florbela fala das almas dos poetas como violetas — frágeis, secretas, incompreendidas.
Ela reconhece na poesia não apenas uma arte, mas uma forma de existir, de sentir o mundo de um jeito que nem sempre encontra tradução fora do verso.
Leia com calma. Deixe o poema habitar você por um instante.
POETAS
por Florbela Espanca
Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.
Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!
Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas
E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma para sentir
A dos poetas também!
Poesia é isso: uma alma falando baixo e profundo.
Você também sente assim? ✨
Aline Elias
Para alguém ganhar
Outros tem que perder
Todos os danos
Justificáveis
Soldados se vão
Passado de guerra
Nascem da lama
Ensanguentada
Os novos loucos
Heróis do futuro.
Aline Elias
Poesia é assim
Ela chega e foge
Você corre atrás das palavras
Que vem na cabeça
E depois vão embora
Assim como os dias
Não podemos guardar
Mesmo que esteja no papel
Ela já se foi com palavra e tudo
Aline Elias
Trezentos anos
Fotos na parede
Nomes nos barris
Uva que vira aceto
Vinte e cinco anos
Líquidos e estações
Trabalho de avó para
Respeitando o tempo
Alquimia e a transformação.
Aline Elias