No próximo dia 21 de junho, celebramos o aniversário de nascimento de Machado de Assis, um dos maiores nomes da literatura brasileira. Quase dois séculos após seu nascimento, sua obra continua despertando debates, inspirando pesquisas e revelando novas camadas de interpretação.
Muito se fala sobre a genialidade de Machado ao retratar a sociedade de sua época, mas há um aspecto particularmente fascinante em seus textos: a forma como ele explorou questões ligadas à mente humana décadas antes de elas se tornarem objeto de estudo da ciência moderna.
Essa relação entre literatura, psiquiatria e comportamento humano é o ponto de partida do livro Machado de Assis: a loucura e as leis, da Matrix Editora, escrito pelo psiquiatra e professor da USP Daniel Martins de Barros. Na obra, o autor analisa diversos contos machadianos e mostra como o escritor abordou temas que hoje fazem parte das discussões da psicologia, da neurociência e até do direito.
Em O Anjo Rafael, por exemplo, Machado descreve um caso muito semelhante ao que a medicina posteriormente chamaria de psicose compartilhada. Já em O Lapso, apresenta estratégias de raciocínio e mudança de comportamento que lembram princípios utilizados atualmente pela Terapia Cognitivo-Comportamental.
Mas talvez o mais impressionante não seja a coincidência entre ficção e ciência. O que realmente chama atenção é a capacidade do escritor de observar o ser humano com profundidade. Em contos como A Ideia do Ezequiel Maia e Entre Santos, ele investiga a consciência, os desejos ocultos, as motivações inconscientes e os mecanismos que influenciam nossas escolhas — temas que continuam sendo estudados por pesquisadores até hoje.
Em Uma Partida, Machado também estabelece relações entre desejo, compulsão e comportamento, antecipando discussões que mais tarde seriam exploradas pela psicanálise e pela neurobiologia. Já em Conto Alexandrino, aborda questões ligadas à criminalidade, à ética científica e aos limites das intervenções sobre o comportamento humano.
Esses exemplos mostram que a literatura não apenas acompanha seu tempo. Em muitos casos, ela o ultrapassa. Ao mergulhar nas contradições, desejos e fragilidades humanas, escritores como Machado de Assis alcançam percepções que permanecem relevantes mesmo quando o mundo muda ao seu redor.
Talvez seja por isso que sua obra continue tão viva. Mais do que contar histórias, Machado nos convida a refletir sobre quem somos — e essa é uma pergunta que nem a ciência conseguiu responder completamente.
E você? Acredita que a literatura pode compreender a alma humana antes mesmo de a ciência encontrar explicações para ela?

