sexta-feira, 26 de outubro de 2018

FLORBELA ESPANCA: SER POETA

O que dizer sobre esse poema maravilhoso de Florbela Espanca, incrível poetisa portuguesa que sempre esteve muito à frente do seu tempo, sobre ser poeta? Se me faltam palavras, fiquem com as dela!


Ser Poeta


Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

Florbela Espanca

terça-feira, 23 de outubro de 2018

POEMA: CASULO


Casulo 

No casulo não sinto nada 
Nem raiva 
Nem desejo 
Nem sofrimento 

Aline Elias

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Aos que vierem depois de nós - Bertolt Brecht


Aos que vierem depois de nós

I
Realmente, vivemos tempos sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: “Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!”

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.

II
Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

III
Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.

Bertolt Brecht (Tradução Manuel Bandeira)

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

12 de outubro - Gonzaguinha e a pureza da resposta das crianças

Para o dia 12 de outubro, eu fico com a pureza da resposta das crianças, e vocês? 
Vamos de Gonzaguinha, então?


O QUE É? O QUE É? 
Gonzaguinha

Eu fico com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita, é bonita

Viver, e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar, e cantar, e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ai, meu Deus
Eu sei (Eu sei)
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita

Viver, e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar, e cantar, e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ai, meu Deus
Eu sei (Eu sei)
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita

E a vida? E a vida o que é, diga lá, meu irmão?
Ela é a batida de um coração 
Ela é uma doce ilusão
E a vida? Ela é maravilha ou é sofrimento
Ela é alegria ou lamento
O que é, o que é, meu irmão?

Há quem fale
Que a vida da gente é um nada no mundo 
É uma gota, é um tempo que nem dá um segundo
Há quem fale
Que é um divino mistério profundo
É o sopro do Criador 
Numa atitude repleta de amor

Você diz que é luta e prazer
Ele diz que a vida é viver 
Ela diz que melhor é morrer
Pois amada não é, e o verbo é sofrer
Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida 
Como der ou puder ou quiser

Sempre desejada 
Por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte
Só saúde e sorte
E a pergunta roda 
E a cabeça agita
Eu fico com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita, é bonita 

Viver, e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar, e cantar, e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ai, meu Deus
Eu sei (Eu sei)
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita

Viver, e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar, e cantar, e cantar
A beleza de ser um eterno aprendiz
Ai, meu Deus
Eu sei (Eu sei)
Que a vida devia ser bem melhor e será
Mas isso não impede que eu repita
É bonita, é bonita e é bonita
Viver

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

EU QUERO por Euclides da Cunha


EU QUERO

Eu quero à doce luz dos vespertinos pálidos
Lançar-me, apaixonado, entre as sombras das matas
_ Berços feitos de flor e de carvalhos cálidos
Onde a Poesia dorme, aos cantos das cascatas...

Eu quero aí viver _ o meu viver funéreo,
Eu quero aí chorar _ os tristes prantos meus...
E envolto o coração nas sombras do mistério,
Sentir minh'alma erguer-se entre a floresta de Deus!

Eu quero, da ingazeira erguida aos galhos úmidos,
Ouvir os cantos virgens da agreste patativa... 
Da natureza eu quero, nos grandes seios túmidos,
Beber a Calma, o Bem, a Crença _ ardente a altiva.

Eu quero, eu quero ouvir o esbravejar das águas
Das asp'ras cachoeiras que irrompem do sertão...
E a minh'alma, cansada ao peso atroz das mágoas,
Silente adormecer no colo da so'idão... 

Euclides da Cunha (1883)

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Meu Pequeno Tico e a Oração de São Francisco de Assis

Dia 04 de outubro nós comemoramos o Dia de São Francisco de Assis, o padroeiro dos animais e da natureza! 


Nunca é tarde para compartilhar essa linda oração, e para acompanhar, compartilho com vocês imagens do meu pequeno Tico, já que estamos falando de seu santo protetor! A primeira é de alguns anos atrás, a segunda é como ele está hoje, já velhinho, mas o amor e a fidelidade permanecem iguais!


Oração de São Francisco de Assis

Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida, que eu leve a fé;
Onde houver erro, que eu leve a verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.

Ó Mestre, Fazei que eu procure mais
Consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive para a vida eterna.

São Francisco de Assis


segunda-feira, 1 de outubro de 2018

A Carta do Velho de 100 Anos - Por Anderson Diego Gama Reis

MONÓLOGO: A CARTA DO VELHO DE 100 ANOS
Por Anderson Diego Gama Reis


Quase não seguro direito esta caneta, minha visão quase não enxerga além da nuvem de fumaça que se cria ao meu redor.
Pois bem, escrevo esta carta para todos aqueles que não sabem o que é aproveitar o máximo que a vida nos tem a ensinar.
Eu tenho 100 anos e sou de um tempo em que as pessoas conversavam uma com as outras e os jovens tinham respeito com os idosos e com seus familiares, e que toda vez que visitava meus tios, eu lhes pedia a benção, enfim, sou de um tempo de paz...

Lembro-me ainda pequeno, uns 10 ou 12 anos, quando mamãe e papai esperavam ansiosos pelo carteiro, sim, naquele tempo os carteiros entregavam verdadeiramente as cartas e não são como hoje que só entregam cobranças, faturas ou encomendas.
Era um tempo bom e essa profissão era uma das mais almejadas pela juventude, pois, era através dos carteiros que levavam notícias boas, riquezas, ou, traziam notícias infortunas, enfim, era um tempo bom.

Hoje conversando com minha neta, ela me disse que estava no MSN e ao mesmo tempo fazendo seu trabalho de escola no estilo copiou e colou. Nossa, como essa juventude esta se perdendo, não estão estudando mais, há que saudade daquela velha e boa biblioteca que ficava ao fim da rua no meu bairro, era costume, toda vez que saíamos da sala de aula, irmos até esta grande universidade de conhecimentos para buscar informações. Éramos obrigados a ler, era bom. Hoje olho para minha neta e não encontro o gosto por estudo, não percebo o gosto pela informação, aliás, falando em notícias, como era bom os vizinhos conversando, todo mundo se conhecia, ai... (emociono-me nas lembranças)

Enfim, olho hoje para o horizonte e não mais encontro o bonde passando na velha estação, que pena, hoje o ser humano tornou-se individualista, mercenário, ranzinza, prefere agarra-se a seus automóveis beberrões do que compartilharem uma bela conversa ao balanço do velho bonde.

Arg arg arg, já não tenho mais forças para continuar escrevendo, por isso, deixo essa carta a você que ainda acredita no ser humano, no ideal social e no bem comum, não cometa os erros que meus filhos e netos cometeram, seja dedicado aos estudos e leia, leia bastante pois, ler é a chave para todos os males de nossa sociedade. E que eu possa descansar em paz. Adeus.

De seu grande amigo,

Um velho de 100 anos...

Fonte: http://www.dominiopublico.gov.br