NÃO QUERO
Não quero ser louco
Nem chato
Não quero ser herege
Nem pecador
Não quero ser estranho
Nem antissocial
Mas as vezes sou tudo isso
E também louco.
Aline Elias
Não quero ser louco
Nem chato
Não quero ser herege
Nem pecador
Não quero ser estranho
Nem antissocial
Mas as vezes sou tudo isso
E também louco.
Aline Elias
A PELE FALA
Sentimos pela pele
Os medos e as tristezas
As alegrias e as transformações
A pele fala o que escondemos.
Aline Elias
No meio das montanhas
Sou pequeníssima
Um grande escuro
E o céu estrelado
Filhotes de animais
Atravessam ágeis
Uma tempestade
Carrega os elefantes
Eu quase não existo
O olhar embaça
Não posso falar
Com a noite
Entranhas
Como feto na concha
Travesseiro de porco-espinho
Desmanchado de corpo
Sangram músculos
Grudam nos ossos
Fenda de consciência
Cansaço movediço
Fragmento humano
Restam olhos iguais aos da minha mãe
Aline Elias
Mude,
Mas comece devagar,
porque a direção é mais importante
que a velocidade.
Sente-se em outra cadeira,
no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair,
procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho,
ande por outras ruas, calmamente,
observando com atenção
os lugares por onde você passa.
Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os teus sapatos velhos.
Procure andar descalça alguns dias.
Tire uma tarde inteira
para passear livremente no campo,
ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda.
Durma no outro lado da cama…
depois, procure dormir em outras camas da casa.
Assista a outros programas de tv,
compre outros jornais…
leia outros livros,
viva outros romances.
Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia
numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos,
escolha comidas diferentes,
novos temperos, novas cores, novas delícias.
Tente o novo todo dia.
o novo lado, o novo método,
o novo sabor, o novo jeito,
o novo prazer, o novo amor.
a nova vida.
Tente.
Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.
Almoce em outros locais,
vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida
compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo,
jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro mercado…
outra marca de sabonete,
outro creme dental…
tome banho em novos horários.
Use canetas de outras cores.
Vá passear em outros lugares.
Ame muito, cada vez mais,
de modos diferentes.
Troque de bolsa,
de carteira,
de malas,
troque de carro,
compre novos óculos,
escreva versos e poesias.
Jogue os velhos relógios,
quebre delicadamente
esses horrorosos despertadores.
Abra conta em outro banco.
Vá a outros cinemas,
outros cabeleireiros,
outros teatros,
visite novos museus.
Mude.
Lembre-se de que a vida é uma só.
E pense seriamente em arrumar um outro emprego,
uma nova ocupação,
um trabalho mais light,
mais prazeroso,
mais digno,
mais humano.
Se você não encontrar razões para ser livre,
invente-as.
Seja criativa.
Grite o mais alto que puder no espaço vazio.
Deixem pensar que você está louca.
Aproveite para fazer uma viagem despretensiosa,
longa, se possível sem destino.
Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores
e coisas piores do que as já conhecidas,
mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança,
o movimento,
o dinamismo,
a energia.
A positividade que você esta sentindo agora.
Só o que está morto não muda !
Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena!!!!
Edson Marques
A sala de troféus
Chamada sala da vitória
Os vitoriosos estão lá
Fotografados e endeusados
Por alguns momentos
Se esqueceram
Que eram mortais.
Aline Elias
Na penumbra do pórtico encantado
De Bruges, noutras eras, já vivi;
Vi os templos do Egito com Loti;
Lancei flores, na Índia, ao rio sagrado.
No horizonte de bruma opalizado,
Frente ao Bósforo errei, pensando em ti!
O silêncio dos claustros conheci
Pelos poentes de nácar e brocado...
Mordi as rosas brancas de Ispaã
E o gosto a cinza em todas era igual!
Sempre a charneca bárbara e deserta,
Triste, a florir, numa ansiedade vã!
Sempre da vida ? o mesmo estranho mal,
E o coração ? a mesma chaga aberta!
Florbela Espanca
Hoje visitei o passado
Muito bom quando lembramos
Dos primeiros caminhos
De quem fomos no início
Muda a embalagem
O que está dentro permanece.
Aline Elias
Saindo do casulo
Da casa mãe
Que acolheu e escondeu
Dos males do mundo
Difícil sair desse universo
Que abraça e conforta
Onde tudo se conhece
Quase uma caverna
O todo do mundo
Cabe ali dentro.
Aline Elias
Quando perdemos
O que é eterno
Vem a tristeza e o medo
Essas eternidades
Serão sempre uma parte que falta.
Aline Elias
Diluído numa taça de oiro a arder
Toledo é um rubi. E hoje é nosso!
O sol a rir... Vivalma... Não esboço
Um gesto que me não sinta esvaecer...
As tuas mãos tacteiam-me a tremer...
Meu corpo de âmbar, harmonioso e moço,
É como um jasmineiro em alvoroço
Ébrio de sol, de aroma, de prazer!
Cerro um pouco o olhar, onde subsiste
Um romântico apelo vago e mudo
— Um grande amor é sempre grave e triste.
Flameja ao longe o esmalte azul do Tejo...
Uma torre ergue ao céu um grito agudo...
Tua boca desfolha-me num beijo...
Florbela Espanca
Atmosfera de tribo
Os homens dançando
Se mostrando para as meninas
E elas seguindo Dionísio
Se deixando levar pela bebida
E a alegria de estarmos vivos.
Aline Elias
Ele dizia que o mundo é grande
Que tem muito lugar dentro
E ninguém precisa expulsar
O outro para viver bem.
Aline Elias
As crianças perguntam
Olhinhos abertos
Exploram o mundo
Os velhos desistem
Não querem entender
Precisam viver.
Vou existir como sou
Porque um dia qualquer
Não mais existirei.
Aline Elias
A Noite vem poisando devagar
Sobre a Terra, que inunda de amargura...
E nem sequer a benção do luar
A quis tornar divinamente pura...
Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura...
E eu oiço a Noite imensa soluçar!
E eu oiço soluçar a Noite escura!
Porque és assim tão escura, assim tão triste?!
é que, talvez, ó Noite, em ti existe
Uma saudade igual à que eu contenho!
Saudade que eu sei donde me vem...
Talvez de ti, ó Noite! ... Ou de ninguém! ...
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!
Florbela Espanca
UMA OU OUTRA
Busquei uma coisa
Encontrei outra.
Pensei em uma vida
Mas vivo outra.
Não escrevemos a vida
Contamos as histórias
Aline Elias
Sabe o que é um coração
amar ao máximo de seu sangue?
Bater até o auge de seu baticum?
Não, você não sabe de jeito nenhum.
Agora chega.
Reforma no meu peito!
Pedreiros, pintores, raspadores de mágoas
aproximem-se!
Rolos, rolas, tinta, tijolo
comecem a obra!
Por favor, mestre de Horas
Tempo, meu fiel carpinteiro
comece você primeiro passando verniz nos móveis
e vamos tudo de novo do novo começo.
Iansã, Oxum, Afrodite, Vênus e Nossa Senhora
apertem os cintos
Adeus ao sinto muito do meu jeito
Pitos ventres pernas
aticem as velas
que lá vou de novo na solteirice
exposta ao mar da mulatice
à honra das novas uniões
Vassouras, rodos, águas, flanelas e cercas
Protejam as beiras
lustrem as superfícies
aspirem os tapetes
Vai começar o banquete
de amar de novo
Gatos, heróis, artistas, príncipes e foliões
Façam todos suas inscrições.
Sim. Vestirei vermelho carmim escarlate
O homem que hoje me amar
Encontrará outro lá dentro.
Pois que o mate.
Da idade do meio para velhice
Pelo menos sobram memórias
Ninguém se lembra
Do vazio da solitude
No tempo da infância
Aline Elias
Pousa a tua cabeça dolorida
Tão cheia de quimeras, de ideal,
Sobre o regaço brando e maternal
Da tua doce Irmã compadecida.
Hás-de contar-me nessa voz tão qu’rida
A tua dor que julgas sem igual,
E eu, pra te consolar, direi o mal
Que à minha alma profunda fez a Vida.
E hás-de adormecer nos meus joelhos...
E os meus dedos enrugados, velhos,
Hão-de fazer-se leves e suaves...
Hão-de pousar-se num fervor de crente,
Rosas brancas tombando docemente,
Sobre o teu rosto, como penas de aves...
Florbela Espanca
Agora chegamos
Somente o silêncio
Das ruas vazias
Do início do ano
Que começa manso
Como criança nasce
E nos deslumbra
Encantados seguimos
Como o louco
Vamos explorar caminhos
Aline Elias
Chuva e frio
Polícias e revistas
Big organization
Vacinação e medo
Cerveja amarga
Espuma que transborda
Salsicha e pão.
Espera da tela
Aguardando voar
A menina forte
Carrega os carrinhos
Lufthansa.
Minha alma tem o peso da luz
Tem o peso da música
Tem o peso da palavra nunca dita,
Prestes quem sabe a ser dita
Tem o peso de uma lembrança
Tem o peso de uma saudade
Tem o peso de um olhar
Pesa como pesa uma ausência
E a lágrima que não chorou
Tem o imaterial peso de uma solidão
No meio de outros
...
Clarice Lispector
NAVIOS-FANTASMAS
O arabesco fantástico do fumo
Do meu cigarro traça o que disseste,
A azul, no ar; e o que me escreveste,
E tudo o que sonhaste e eu presumo.
Para a minha alma estática e sem rumo,
A lembrança de tudo o que me deste
Passa como o navio que perdeste,
No arabesco fantástico do fumo...
Lá vão! Lá vão! Sem velas e sem mastros,
Têm o brilho rutilante de astros,
Navios-fantasmas, perdem-se a distância!
Vão-me buscar, sem mastros e sem velas,
Noiva-menina, as doidas caravelas,
Ao ignoto País da minha infância...
Florbela Espanca
Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis da meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.
*
Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.
João Cabral de Melo Neto
Publicado no livro A educação pela pedra (1966).
ESCOLHAS
Como o branco nivela
Por isso a neve encanta
A natureza com força
Posso crescer ou diminuir
Depende do que quero ser
Do que decidir aceitar
As escolhas passadas
Regem o presente
As escolhas futuras
Dizem o que virá.
Aline Elias
RELÓGIOS
As Torres das igrejas
Cada uma com um relógio
O tempo passou
Os relógios de bolso
Guardados nos coletes
Como era o do meu avô
O tempo passou
Os cucos barulhentos
Chegando e partindo
O tempo passou
As caixinhas de música
Agora sem bailarinas
O tempo passou
As bolas de Vidro
Soltam flocos de neve
O tempo passou.
A MINHA DOR
A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.
Os sinos têm dobres de agonia
Ao gemer, comovidos, o seu mal...
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias...
A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!
Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém...
Florbela Espanca
Caem na mão
Pedaços deliciosos
Alguns misturados
Flor de sal fino
Castanhas e amêndoas
Marrom escuro
O branco mais branco
Fábrica de sonhos
Nos perdoamos
Tarde demais
Poderia ser antes
As barreiras que criamos
Por motivos fúteis
Ações sem sentido
Perdemos muito tempo
Relembrando memórias
Sem viver o tempo presente.
Aline Elias
Os olhares falam
Alguns de aprovação
Outros de retaliação
Ainda os ressentidos
Outros curiosos
Olhares de amor
Olhares orgulhosos
Olhos de aumento
Ou de diminuição
Olhares críticos
De desaprovação
Olhares calmos
Olhos cansados
Alguns provocativos.
Outros tristonhos
Ainda os tímidos
Os assustados
Os olhos para baixo
Ou olhos para o alto
E os bravos
Os de admiração
Olhares irritadiços
Olhares risonhos
Olhares piedosos
Olhar perdido
Olhar corajoso
Olhares que se encontram
Existe uma palavra
Em cada olhar.
LÁGRIMAS OCULTAS
Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...
E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!
E fico pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida de um lago
O meu rosto de monja de marfim...
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma,
Ninguém as vê cair dentro de mim!
Florbela Espanca
DESABITAÇÃO
Angulo de uma janela
Marrom e branca
Horizonte ladeado
Sacadas sem planta
Sem terra
As vezes flutua
Papel ou plástico
Bandeira isolada
Da torre alta
Para o céu
Olhar a procura
De casas de bairro
Portas sem chave
Barulho de gente
Pisando chão
As novas construções
Multiplicadas e prontas
Aguardam paradas
Os novos tempos
Morada nas alturas
Enquanto os dias
Iguais e indiferentes
Seguem calendário
E a única mudança
Acontece no céu
Aline Elias