segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Canção de uma Dona na Sombra - Poema de Paul Celan


Quando vem a taciturna e poda as tulipas:

Quem sai ganhando?

Quem perde?

Quem aparece na janela?

Quem diz primeiro o nome dela?

É alguém que carrega meus cabelos.

Carrega-os como quem carrega mortos nos braços.

Carrega-os como o céu carregou meus cabelos no ano em

[que amei.

Carrega-os assim por vaidade.


E ganha.

E não perde.

E não aparece na janela.

E não diz o nome dela.

É alguém que tem meus olhos.

Tem-nos desde quando portas se fecham.

Carrega-os no dedo, como anéis.

Carrega-os como cacos de desejo e safira:

era já meu irmão no outono;

conta já os dias e noites.


E ganha.


E não perde.

E não aparece na janela.

E diz por último o nome dela.

É alguém que tem o que eu disse.

Carrega-o debaixo do braço como um embrulho.

Carrega-o como o relógio a sua pior hora.

Carrega-o de limiar a limiar, não o joga fora.


E não ganha.

E perde.

E aparece na janela.

E diz primeiro o nome dela.


E é podado com as tulipas.


Paul Celan
(Tradução: Claudia Cavalcanti)

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Vaidade - Poema de Florbela Espanca


VAIDADE

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada! ...

Florbela Espanca


quarta-feira, 11 de novembro de 2020

O Que Foi Aí - Poema de Hans Magnus Enzensberger


O QUE FOI AÍ

Foi algo de bom,
passou,
por aí.
Pena,
que seja tão difícil
de lembrar
algo de bom.
Saber,
como realmente era.
Como foi real.

Foi, creio,
algo bastante comum,
fantástico.
Algo que
creio ter visto,
ou cheirado,
ou pegado.

Mas se era grande
ou pequeno,
novo ou velho,
claro ou escuro,
isso já não sei.

Só que era melhor
que o que aí está,
muito melhor,
isso ainda eu sei.

Hans Magnus Enzensberger



segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Cogito - Poema de Torquato Neto


COGITO

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim

Torquato Neto



segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Feliz Dia dos Mortos!

Olá, queridos leitores!

Hoje quero compartilhar com vocês este vídeo em que participei com o meu grupo das Semeadoras de histórias do Atelier Ocuilli, o grupo celebra o dia dia mortos!

Espero que gostem, e Feliz Dia dos Mortos!

Aline Elias