segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Canção de uma Dona na Sombra - Poema de Paul Celan


Quando vem a taciturna e poda as tulipas:

Quem sai ganhando?

Quem perde?

Quem aparece na janela?

Quem diz primeiro o nome dela?

É alguém que carrega meus cabelos.

Carrega-os como quem carrega mortos nos braços.

Carrega-os como o céu carregou meus cabelos no ano em

[que amei.

Carrega-os assim por vaidade.


E ganha.

E não perde.

E não aparece na janela.

E não diz o nome dela.

É alguém que tem meus olhos.

Tem-nos desde quando portas se fecham.

Carrega-os no dedo, como anéis.

Carrega-os como cacos de desejo e safira:

era já meu irmão no outono;

conta já os dias e noites.


E ganha.


E não perde.

E não aparece na janela.

E diz por último o nome dela.

É alguém que tem o que eu disse.

Carrega-o debaixo do braço como um embrulho.

Carrega-o como o relógio a sua pior hora.

Carrega-o de limiar a limiar, não o joga fora.


E não ganha.

E perde.

E aparece na janela.

E diz primeiro o nome dela.


E é podado com as tulipas.


Paul Celan
(Tradução: Claudia Cavalcanti)

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