sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

ESPERANÇA por Mário Quintana

 


ESPERANÇA

 

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano

Vive uma louca chamada Esperança

E ela pensa que quando todas as sirenas

Todas as buzinas

Todos os reco-recos tocarem

Atira-se

E

— ó delicioso voo!

Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,

Outra vez criança…

E em torno dela indagará o povo:

— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?

E ela lhes dirá

(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)

Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:

— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…


Mário Quintana

 

Texto extraído do livro “Nova Antologia Poética”, Editora Globo – São Paulo, 1998, pág. 118

domingo, 24 de dezembro de 2023

ANUNCIAÇÃO por Aline Elias

Véspera de Natal e novamente quero compartilhar este texto meu, que fez parte do livro "Palavras Presentes", junto com este belíssimo texto bíblico encontrado no livro de Lucas:


No sexto mês, foi o anjo Gabriel enviado, da parte de Deus, para uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem da casa de Davi, cujo nome era José; a virgem chamava-se Maria.
E, entrando o anjo aonde ela estava, disse: Alegra-te, muito favorecida! O Senhor é contigo. Ela, porém, ao ouvir esta palavra, per-turbou-se muito e pôs-se a pensar no que significaria esta saudação.
Mas o anjo lhe disse: Maria, não temas; porque achaste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem chamarás pelo nome de Jesus. 
Esse será grande e será chamado filho do Altíssimo; Deus, o Se-nhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará para sempre na casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim. 

Lucas 1. 26-35



Anunciação (Por Aline Elias)

Ao amanhecer ouvimos os passos da mulher que sobe batendo o salto alto na escada ao lado do jardim anunciando a chegada do Natal. Deitados esperamos o barulho silenciar e corremos para a cozinha. As mulheres conversam e separam bacias, panelas e assadeiras. Preparamos a massa da esfiha : um quilo de farinha colocado na bacia de alumínio, espaço aberto no meio com a mão, dissolvemos dois tabletes de fermento biológico em uma xícara de leite morno e derramamos na massa, uma xícara de óleo, uma colher de café de açúcar, uma colher de sal. Amassar, misturar, amassar e misturar todos os ingredientes até deixarmos a massa elástica que é colocada para crescer. Depois de pelo menos uma hora cortamos a massa em pequenos pedaços  e enrolamos bolinhas. Depois abrimos as bolinhas de massa com uma garrafa pequena de refrigerante até formarmos pequenos círculos. Enchemos rapidamente os círculos de massa com carne moída crua misturada com pequenos pedaços de tomate, temperada com sal, salsinha, cebola ralada e limão. Fechamos os círculos como envelopes e colocamos as esfihas fechadas na assadeira para assar no forno bem quente. Os círculos de massa não podem ficar abertos por muito tempo senão ficam ressecados. As assadeiras de esfihas quentinhas vão saindo do forno. Hoje acordamos cedo mas a neblina era densa e enxergamos a sombra da mulher. E caminhávamos pela sala com o relógio antigo batendo as horas de Cronos e Kairos batendo outro tempo , o das palavras presentes.

Extraído do conto Salto Alto de Natal 
Palavras Presentes - Coletânea de contos de Natal
Editora Oficio das Palavras - Aline Elias 2010  

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

CHOVE. É DIA DE NATAL. por Fernando Pessoa


Chove. É dia de Natal.

Chove. É dia de Natal.

Lá para o Norte é melhor:

Há a neve que faz mal,

E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente

Porque é dia de o ficar.

Chove no Natal presente.

Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse

O Natal da convenção,

Quando o corpo me arrefece

Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra

E o Natal a quem o fez,

Pois se escrevo ainda outra quadra

Fico gelado dos pés.


Fernando Pessoa

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Poema de Natal por Vinicius de Moraes

 


Poema de Natal

Para isso fomos feitos: 

Para lembrar e ser lembrados 

Para chorar e fazer chorar 

Para enterrar os nossos mortos - 

Por isso temos braços longos para os adeuses 

Mãos para colher o que foi dado 

Dedos para cavar a terra. 


Assim será a nossa vida: 


Uma tarde sempre a esquecer 

Uma estrela a se apagar na treva 

Um caminho entre dois túmulos - 

Por isso precisamos velar 

Falar baixo, pisar leve, ver 

A noite dormir em silêncio. 


Não há muito que dizer: 


Uma canção sobre um berço 

Um verso, talvez, de amor 

Uma prece por quem se vai - 

Mas que essa hora não esqueça 

E por ela os nossos corações 

Se deixem, graves e simples. 


Pois para isso fomos feitos: 

Para a esperança no milagre 

Para a participação da poesia 

Para ver a face da morte - 

De repente nunca mais esperaremos... 

Hoje a noite é jovem; da morte, apenas 

Nascemos, imensamente.


Vinicius de Moraes

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

Conto: Peru de Natal por Mario de Andrade

O conto Peru de Natal é perfeito para descrever as tradições enraizadas na família. Em geral é difícil fazer algo que esteja fora do contexto do que vivemos. Na antiga casa fazíamos tudo juntos desde a véspera de Natal. Preparávamos as comidas, quatro ou cinco mulheres de todas as idades, as mais jovens cortavam frutas, lavavam louça, desfiavam frango. E conversávamos com o dia todo, algumas trabalhando outras fingindo, passavam ali para esquecer as mazelas. Os homens procuravam fugir das conversas intermináveis e do caos na cozinha. Chegava a meia noite e nos abraçávamos e arrumávamos correndo a mesa no quintal. Colocávamos os pratos, os doces do armário, as comidas do fogão. Sentávamos. Os velhos, os jovens, as crianças, os bêbados, os sóbrios, os chatos, os pobres, os ricos, os loucos. 



No conto “O Peru de Natal” o louco é o personagem contestador, ele passa por cima da autoridade do patriarca morto e busca o desejo. Terminávamos a noite de Natal jogando cartas e se tirássemos um tarô viria a carta do louco. Ela mostra um jovem seguindo alegremente o novo. Será que essa era a mensagem de Mario de Andrade? Seja o louco, esqueça as verdades que foram ditas por outros e siga um novo caminho. 

Aline Elias

******************

O PERU DE NATAL

O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de conseqüências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, de uma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.

Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando chegamos nas proximidades do Natal, eu já estava que não podia mais pra afastar aquela memória obstruente do morto, que parecia ter sistematizado pra sempre a obrigação de uma lembrança dolorosa em cada almoço, em cada gesto mínimo da família. Uma vez que eu sugerira à mamãe a idéia dela ir ver uma fita no cinema, o que resultou foram lágrimas. Onde se viu ir ao cinema, de luto pesado! A dor já estava sendo cultivada pelas aparências, e eu, que sempre gostara apenas regularmente de meu pai, mais por instinto de filho que por espontaneidade de amor, me via a ponto de aborrecer o bom do morto.

Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a idéia de fazer uma das minhas chamadas "loucuras". Essa fora aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedinho, desde os tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma reprovação todos os anos; desde o beijo às escondidas, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, uma detestável de tia; e principalmente desde as lições que dei ou recebi, não sei, de uma criada de parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama conciliatória de "louco". "É doido, coitado!" falavam. Meus pais falavam com certa tristeza condescendente, o resto da parentagem buscando exemplo para os filhos e provavelmente com aquele prazer dos que se convencem de alguma superioridade. Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me salvou, essa fama. Fiz tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se realizar com integridade. E me deixaram fazer tudo, porque eu era doido, coitado. Resultou disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar um nada.

Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres. Foto: Mário Jorge de Castro.
Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres. Foto: Mário Jorge de Castro.
Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra-nozes...), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas "loucuras":

— Bom, no Natal, quero comer peru.

Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar ninguém por causa do luto.

— Mas quem falou de convidar ninguém! essa mania... Quando é que a gente já comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa é prato de festa, vem toda essa parentada do diabo...

— Meu filho, não fale assim...

— Pois falo, pronto!

E descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem infinita, diz-que vinda de bandeirantes, que bem me importa! Era mesmo o momento pra desenvolver minha teoria de doido, coitado, não perdi a ocasião. Me deu de sopetão uma ternura imensa por mamãe e titia, minhas duas mães, três com minha irmã, as três mães que sempre me divinizaram a vida. Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru naquela casa. Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas três mães, três dias antes já não sabiam da vida senão trabalhar, trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e ainda levava embrulhinhos pros que não tinham podido vir. As minhas três mães mal podiam de exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia ainda provavam num naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa.

Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus "gostos", já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.

Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a... culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas, até que minha irmã resolveu o consentimento geral:

— É louco mesmo!...

Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. Fora engraçado:assim que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não fizera outra coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha adorada. E meus manos também, estavam no mesmo ritmo violento de amor, todos dominados pela felicidade nova que o peru vinha imprimindo na família. De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não resistindo àquelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido numa quase pobreza sem razão.

— Não senhora, corte inteiro! Só eu como tudo isso!

De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Foto: Getty Images.
De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Foto: Getty Images.
Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim, que até era capaz de comer pouco, só-pra que os outros quatro comessem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo. Aquele peru comido a sós, redescobria em cada um o que a quotidianidade abafara por completo, amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me perdoe mas estou pensando em Jesus... Naquela casa de burgueses bem modestos, estava se realizando um milagre digno do Natal de um Deus. O peito do peru ficou inteiramente reduzido a fatias amplas.

— Eu que sirvo!

"É louco, mesmo" pois por que havia de servir, se sempre mamãe servira naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra mim e principiei uma distribuição heróica, enquanto mandava meu mano servir a cerveja. Tomei conta logo de um pedaço admirável da "casca", cheio de gordura e pus no prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:

— Se lembre de seus manos, Juca!

Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela, da Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus crimes, a que eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou sublime.

— Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe não!

Foi quando ela não pode mais com tanta comoção e principiou chorando. Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrima sem abrir a torneirinha também, se esparramou no choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não chorar também, tinha dezenove anos... Diabo de família besta que via peru e chorava! coisas assim. Todos se esforçavam por sorrir, mas agora é que a alegria se tornara impossível. É que o pranto evocara por associação a imagem indesejável de meu pai morto. Meu pai, com sua figura cinzenta, vinha pra sempre estragar nosso Natal, fiquei danado.

Bom, principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava perfeito. A carne mansa, de um tecido muito tênue boiava fagueira entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e redesejada, pela intervenção mais violenta da ameixa preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz. Mas papai sentado ali, gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga, uma incapacidade. E o peru, estava tão gostoso, mamãe por fim sabendo que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.

Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.

— Só falta seu pai...


Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai. E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e político. Naquele instante que hoje me parece decisivo da nossa família, tomei aparentemente o partido de meu pai. Fingi, triste:

— É mesmo... Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto trabalhar pra nós, papai lá no céu há de estar contente... (hesitei, mas resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós todos reunidos em família.

E todos principiaram muito calmos, falando de papai. A imagem dele foi diminuindo, diminuindo e virou uma estrelinha brilhante do céu. Agora todos comiam o peru com sensualidade, porque papai fora muito bom, sempre se sacrificara tanto por nós, fora um santo que "vocês, meus filhos, nunca poderão pagar o que devem a seu pai", um santo. Papai virara santo, uma contemplação agradável, uma inestorvável estrelinha do céu. Não prejudicava mais ninguém, puro objeto de contemplação suave. O único morto ali era o peru, dominador, completamente vitorioso.

Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever «felicidade gustativa», mas não era só isso não. Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade familiar pra nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.

Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia lhe fazer mal. Mas logo pensei: ah, que faça! mesmo que ela morra, mas pelo menos que uma vez na vida coma peru de verdade!

A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor... Depois vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha terra levam o nome de "bem-casados". Mas nem mesmo este nome perigoso se associou à lembrança de meu pai, que o peru já convertera em dignidade, em coisa certa, em culto puro de contemplação.

Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco importa, porque é bom uma insônia feliz. O diabo é que a Rose, católica antes de ser Rose, prometera me esperar com uma champanha. Pra poder sair, menti, falei que ia a uma festa de amigo, beijei mamãe e pisquei pra ela, modo de contar onde é que ia e fazê-la sofrer seu bocado. As outras duas mulheres beijei sem piscar. E agora, Rose!...

Mário de Andrade

******************

Mário de Andrade (1893-1945), nasceu em São Paulo, mostrando desde cedo inclinação pela música e literatura. Seu interesse pelas artes levou-o a realizar em São Paulo, de parceria com Oswald de Andrade, a Semana de Arte Moderna, que rasgou novas perspectivas para a cultura brasileira. Sua obra, essencialmente brasileira, reflete um nacionalismo humanista, que nada tem de místico e abstrato. "Macunaíma", baseada em temas folclóricos é, geralmente, considerada a sua obra-prima.

“O Peru de Natal“, foi publicado por Mário de Andrade (1893-1945) na revista da Academia Paulista de Letras em 1942 e, posteriormente, na obra póstuma Contos Novos, de 1947. O texto acima foi extraído do livro "Nós e o Natal", Artes Gráficas Gomes de Souza, Rio de Janeiro, 1964, pág. 23.

* O conto e as informações sobre o autor foram extraídos do site https://saopaulosao.com.br/

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Dia Nacional da Consciência Negra: O poder de ser do jeito que a gente é

Anos atrás eu trouxe essa recomendação para o blog, e acho que continua sendo muito válida! Devemos ter essa consciência abordada na data de hoje todos os dias, mas já que hoje é o dia em que oficialmente falamos sobre isso, quero indicar esse livro infantil da Editora do Brasil, "Que cabelo é esse, Bela", que ensina uma importante lição para as crianças!


Toda vez que chovia, a garotada fazia a festa no quintal da vila onde Bela morava. Ela e os amigos adoravam brincar com a água que caia do céu. Principalmente por um detalhe mágico: com a água da chuva, o cabelo dela começava a brilhar! “Toda vez que um amigo a alcançava, ela passava as mãos nos cabelos e dividia seu brilho. E rapidamente voltava a brilhar e a correr dos amigos. Quando nenhum deles conseguia pegá-la, Bela balançava a cabeça respingando brilho em todos”, diz um trecho de Que cabelo é esse, Bela?, escrito por Simone Mota, com ilustrações de Roberta Nunes, um lançamento da Editora do Brasil.


Mas nem todos se encantavam com o poder de brilho do cabelo da garota. Alguns faziam bullying com a menina, implicavam com aquela cabeleira e gritavam “Corta essa juba!”, “Alisa!”. E Bela começou a se incomodar, ficou triste e preferiu não ter mais tanto brilho. Por que não podia ser quem era?  Seria melhor não ter mais aquele poder nos cabelos?

Sua mãe lhe explica então a origem daquele brilho, que remontava à tataravó de Bela, uma mulher escravizada. E agora ela tem a escolha de renunciar ou não a esse poder. O que fazer?

Com essa narrativa singela, a escritora Simone Mota aborda um tema superatual: a importância de quebrar preconceitos e padrões de beleza impostos. E mais, a importância de descobrir e valorizar o poder da ancestralidade e afirmar-se enquanto indivíduo consciente.

Indicado para crianças a partir dos 9 anos, o livro faz parte da coleção Mil e uma histórias, que reúne autores renomados, ilustrações encantadoras e narrativas cativantes. As obras dessa série refletem a cultura popular e a infância, mostrando a realidade de um jeito diferente levando o pequeno leitor a pensar sobre suas atitudes e o mundo que o cerca.

Sobre a autora

Formada em Estatística pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Simone Mota também cursou dois mestrados, que não chegou a concluir: Engenharia de Petróleo, na Universidade Estadual do Norte Fluminense, e Letras, na Universidade Estácio de Sá. Mas se encontrou mesmo foi escrevendo livros para criança. Estreou nesse ofício em 2011 e já tem nove obras publicadas, seis deles em uma coleção e uma poesia na antologia do Prêmio UFF de Literatura, do qual foi finalista. Sobre seu novo livro ela diz: “ ‘Que cabelo é esse?’ é uma frase ecoante na minha vida. E na ignorância de seu sentido, acabei imaginando. O eco reverberou e virou essa história. É difícil saber quando isso aconteceu. As histórias são assim mesmo, existem e escolhem como e quando serão contadas. Eu fui escolhida para contar essa para vocês.” 

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

OS PASSOS por Aline Elias


OS PASSOS


Pensando nesses dias

Nada parece estar no lugar

No entanto tudo continua

Até as palavras se repetem

A passagem do tempo

O agora já no passado

Transição que não acaba

Apressamos ou retardamos

E seguimos


Aline Elias

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

TBT Especial - Dia de Los Muertos no México em 2018

Quinta é o dia em que geralmente as pessoas fazem o "TBT", compartilhando boas memórias, e hoje eu quero entrar nessa e compartilhar com vocês algumas lembranças muito boas de 2018, quando estive no México e tive a oportunidade de participar das festividades do "Dia dos Mortos", ou melhor, "Dia de Los Muertos"!

Bem diferente do Dia de Finados com o qual estamos acostumados no Brasil, quem já assistiu as animações "Festa no Céu" ou "Viva - A Vida é uma Festa" tem uma ideia de como é essa celebração para os mexicanos. Alguns dos momentos que guardarei no coração vocês podem conferir abaixo!


Aqui estou eu com meu novo amigo! xD

Vestidos para o Dia de Los Muertos
Comparsas: Grupo de pessoas que desfilam pelas ruas fantasiadas de mortos.

A mensagem da Guadalupe: Faça oferendas dançando  e cantando. E preces na sua fé para os que se foram. E viva que é o mais importante.

Aline Elias

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

O Poema por Aline Elias

 


O POEMA


O que faço com esse poema ?

Coloco tudo dentro dele

Alegria, tristeza

Cabem juntas

Alegria do que vivo

Do que está por vir

Tristeza do que já foi

E nunca mais será


Aline Elias

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

Folhas de Rosas por Florbela Espanca


FOLHAS DE ROSA


Todas as prendas que me deste, um dia,

Guardei-as, meu encanto, quase a medo,

E quando a noite espreita o pôr-do-sol,

Eu vou falar com elas em segredo...


E falo-lhes d’amores e de ilusões,

Choro e rio com elas, mansamente...

Pouco a pouco o perfume do outrora

Flutua em volta delas, docemente...


Pelo copinho de cristal e prata

Bebo uma saudade estranha e vaga,

Uma saudade imensa e infinita

Que, triste, me deslumbra e m’embriaga


O espelho de prata cinzelada,

A doce oferta que eu amava tanto,

Que reflectia outrora tantos risos,

E agora reflecte apenas pranto,


E o colar de pedras preciosas,

De lágrimas e estrelas constelado,

Resumem em seus brilhos o que tenho

De vago e de feliz no meu passado...


Mas de todas as prendas, a mais rara,

Aquela que mais fala à fantasia,

São as folhas daquela rosa branca

Que a meus pés desfolhaste, aquele dia...


Florbela Espanca


 

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

O Azar por Charles Baudelaire

 


O Azar


Com peso tal, não me ajeito;

Dá-me, Sísifo, vigor!

Embora eu tenha valor,

A Arte é larga e o Tempo Estreito.


Longe dos mortos lembrados,

A um obscuro cemitério,

Minh'alma , tambor funéreo,

Vai rufar trechos magoados.


— Há muitas jóias ocultas

Na terra fria, sepulturas

Onde não chega o alvião;


Muita flor exala a medo

Seus perfumes no degredo

Da profunda solidão


Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"

Tradução de Delfim Guimarães



sexta-feira, 6 de outubro de 2023

5 livros para começar a ler clássicos

Olá, amigos e leitores, a editora Landmark compartilhou este material informativo que eu achei muito interessante e quis compartilhar com vocês, vejam só que dicas preciosas!

***

É definido como clássico uma obra que se torna influente de forma atemporal. Um clássico surge, por exemplo, quando um livro se torna cada vez mais atual e relevante com o tempo. Muitos autores, como Machado de Assis e Ítalo Calvino, já trouxeram alguma definição sobre clássicos, assim como os motivos para ler cada um deles. 



Dentre as razões para a leitura de livros clássicos estão o fato de que essas obras aguçam o senso crítico, aumentam os conhecimentos de vocabulário e também as referências do leitor. No entanto, isso não exclui a leitura de livros atuais, possivelmente alguns deles serão clássicos no futuro, afinal, Machado de Assis provavelmente não sabia que se tornaria tão famoso quanto é hoje.

As obras tidas como clássicas podem ser uma fonte para aumentar o vocabulário, afinal, a narrativa e desenvolvimento dos personagens demandam uma variedade grande de palavras, fazendo com que o leitor expanda o conhecimento nesse sentido.

Para Fábio Pedro-Cyrino, diretor editorial da Editora Landmark – especializada em publicar obras clássicas em edições bilíngues –, os clássicos também são uma fonte de referências. “Muitas obras atuais referenciam clássicos seja de forma sutil ou não, através da adaptação de seus argumentos ou mesmo adaptações de suas histórias para as mais diversas plataformas e formatos. Um exemplo disso é o filme ‘Policarpo Quaresma, Herói do Brasil’ de 1998, baseado na obra de Lima Barreto”, comenta ele. 

Além disso, Machado de Assis já foi inspiração até de Carlos Drummond de Andrade no poema “A um bruxo, com amor…”. Um fator que também deve ser evidenciado pela leitura dos clássicos é o senso crítico, como mostra o livro “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, que coloca em primeiro plano a interpretação do leitor por ser uma obra sem uma resolução direta.

5 clássicos para começar a ler

Outro motivo para a leitura dos clássicos é o estudo para os principais vestibulares do país como o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), Fuvest e as provas de universidades federais. Confira abaixo cinco clássicos para começar a entrar no universo da leitura de clássicos.

Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis (1881)

Essa obra revolucionou o formato do romance por subverter os padrões do romantismo e é tida como realista, mas sem as críticas agressivas de outros escritores do movimento. O mote do livro é feito focando na burguesia por dentro, ou seja, de um ponto de vista psicológico. Por meio da história de um filho abastado da elite brasileira do século XIX, chamado Brás Cubas, é possível refletir sobre a ociosidade da burguesia ao trazer tudo que o protagonista deixou de realizar ao longo da vida, mesmo com tantas oportunidades.

O Cortiço, de Aluísio Azevedo (1890)

Esse livro é um romance naturalista que conta a história de pessoas que vivem em uma espécie de habitação coletiva precária e superlotada, localizada no Rio de Janeiro durante o século XIX. A história se desenrola em torno de João Romão, um ambicioso comerciante português que, a partir da exploração dos moradores do cortiço, consegue acumular riqueza. Ao longo da trama, o autor apresenta uma ampla gama de personagens que habitam o cortiço, representando diferentes camadas sociais e etnias de forma crua e realista, a qual é uma das principais características do movimento naturalista.

Mensagem, de Fernando Pessoa (1934)

De autoria do poeta português Fernando Pessoa, o livro é uma compilação de poemas que apresentam uma visão épica da história de Portugal, explorando temas como a identidade nacional, o destino coletivo e o mito do herói. Por meio da poesia, o livro retrata a trajetória de Portugal desde os tempos antigos até o presente, explorando a relação entre o passado e o presente e a busca por um sentido de identidade nacional e o papel de Portugal no contexto mundial. Nesta obra também são apresentados textos de autoria do próprio poeta que explicitam o modo de composição, a produção e um breve relato biográfico.

Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto (1915)

A obra narra a história de Policarpo Quaresma, um funcionário público apaixonado pelo Brasil e pelas tradições nacionais. Por meio da trajetória de Policarpo Quaresma, Lima Barreto faz uma crítica contundente à alienação, à falta de senso crítico e à dificuldade de adaptação de um indivíduo em um contexto social. O livro é um dos ícones do movimento pré-modernista, transição de escolas como realismo e naturalismo para o modernismo.

Iracema, de José de Alencar (1865)

A trama se passa durante a colonização do Brasil e retrata os conflitos entre os colonizadores europeus e as tribos indígenas. Iracema, filha do pajé da tribo dos tabajaras, é destinada a guardar um segredo, mas seu destino se cruza com o de Martim, um português, que se perde nas matas e é acolhido pela jovem. Entre eles, nasce um amor que desafia as barreiras culturais e sociais da época. O romance é marcado por uma linguagem poética, retratando a exuberância da natureza brasileira, os costumes indígenas e as paisagens do Ceará.

Os livros estão disponíveis na Amazon, nas principais livrarias do país e no site oficial da Editora Landmark. Acesse aqui.

 

sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Vale Sagrado por Aline Elias

 



VALE SAGRADO


No meio das montanhas

Sou pequeníssima

Um grande escuro

E o céu estrelado

Filhotes de animais

Atravessam ágeis

Uma tempestade

Carrega os elefantes

Eu quase não existo

O olhar embaça

Não posso falar

Com a noite


Aline Elias

terça-feira, 19 de setembro de 2023

Alebrije por Aline Elias

 


Alebrije


Você chegou com olhinhos encantados 

E caí de encantamento pelo carinho e o amor 

Não pude mais, te carreguei 

Sabia que era você que eu ia amar 

Passamos pelos tempos de hijos jovens 

Andamos pela mata e relva úmida da manhã

Caminhamos nas tormentas quentes 

Devo a ti mi amor a companhia siempre  

E que Dios te coloque asas para que chegue al cielo 

Ahora es um alebrije animal sagrado 

E vc vai saber quem sou pelas mãos e o colo 

Yo te encontrarei mio alebrije 


Aline Elias


segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Eu por Florbela Espanca

 


EU


Eu sou a que no mundo anda perdida,

Eu sou a que na vida não tem norte,

Sou a irmã do sonho, e desta sorte

Sou a crucificada... a dolorida...


Sombra de névoa ténue e esvaecida,

E que o destino amargo, triste e forte,

Impele brutalmente para a morte!

Alma de luto sempre incompreendida! ...


Sou aquela que passa a ninguém vê...

Sou a que chamam triste sem o ser...

Sou a que chora sem saber porquê...


Sou talvez a visão que Alguém sonhou,

Alguém que veio ao mundo pra me ver

E que nunca na vida me encontrou!


Florbela Espanca


sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Hoje por Aline Elias


Hoje 


Saio do meu centro 

E vou te procurar 

Tenho que entender 

Parar de temer 

Tenho que me segurar

Tem algo que voa

Tenho medo 

Te amo e paraliso 

E te procuro como ontem 

Tenho medo 

Aperto o meu coração 

Tenho que mudar 

Preciso te contar 

Caminhamos na água 

Tenho medo 

Quero te salvar 

Eu me conheço 

Tem algo que voa 

De verdade 

Me salva


Aline Elias

domingo, 27 de agosto de 2023

Editora Intrínseca lança obra que fala sobre o poder transformador dos livros

 

Repleto de diálogos sinceros e profundos, Bem-vindos à Livraria Hyunam-dong, que chega às livrarias em agosto, é uma história emocionante sobre os momentos decisivos da nossa vida e como os livros são capazes de curar feridas e mudar as pessoas. Fenômeno na Coreia do Sul, o romance de estreia de Hwang Bo-reum vendeu mais de 250 mil exemplares em menos de um ano no país e teve seus direitos vendidos para mais de 20 países. 


Após a publicação na Coreia do Sul, o Brasil é um dos primeiros países a conhecer esta obra em tradução direta do coreano. Bem-vindos à Livraria Hyunam-dong é considerado um dos expoentes da chamada “ficção de cura” (healing fiction), subgênero que conquistou os leitores asiáticos. São narrativas que abraçam o leitor com histórias como a da protagonista, Yeongju. Desmotivada após uma sucessão de frustrações, ela sente um vazio eterno em seu peito. Cansada de viver assim, Yeongju decide deixar tudo para trás e colocar em prática um antigo sonho: abrir uma livraria.

Desde a infância, Yeongju encontra conforto nos livros, e abrir um espaço dedicado à literatura parece ser a solução ideal para os seus problemas. Mas começar um negócio nunca é fácil, e Yeongju precisa aprender que ser uma amante dos livros não é o suficiente para tornar o seu sonho realidade. Conforme vai entendendo como administrar uma livraria, Yeongju também descobre mais sobre si mesma e quem ela quer ser. Cercada por livros, ela encontra um novo significado para a vida à medida que a Livraria Hyunam-dong se transforma em um espaço convidativo para que almas feridas descansem, se curem e descubram o que realmente importa. E quando os clientes começam a ficar confortáveis para compartilhar suas histórias, experiências, esperanças e emoções naquele espaço, Yeongju finalmente sente que encontrou o seu lugar.

Foto: Seong Ji-min
 
HWANG BO-REUM é formada em ciência da computação e trabalhou como engenheira de software na LG Electronics. Bem-vindos à Livraria Hyunam-dong é seu primeiro romance.


BEM-VINDOS À LIVRARIA HYUNAM-DONG, de Hwang Bo-reum

Editora Intrínseca
Tradução: Jae hyung Woo
Páginas: 272
Livro impresso: R$ 49,90
E-BOOK: R$ 34,90

sexta-feira, 18 de agosto de 2023

Concreto por Aline Elias

 


Concreto 

O concreto não atrai 
A busca da abstração 
Não para a realidade 
Agarrar raízes 
Temer a loucura 
De tanto sonhar 

Aline Elias

quarta-feira, 16 de agosto de 2023

Um pouco de Sêneca para o Dia do Filósofo

Hoje, 16 de agosto, é celebrado o "Dia do Filósofo" e para essa data, escolhi esse trecho escrito por Sêneca para compartilhar com vocês!



A maior parte dos mortais, Paulino, queixa-se da malevolência da Natureza, porque estamos destinados a um momento da eternidade, e, segundo eles, o espaço de tempo que nos foi dado corre tão veloz e rápido, de forma que, à exceção de muito poucos, a vida abandonaria a todos em meio aos preparativos mesmos para a vida. E não é somente a multidão e a turba insensata que se lamenta deste mal considerado universal: a mesma impressão provocou queixas também de homens ilustres. Daí o protesto do maior dos médicos: “A vida é breve, longa, a arte.” Daí o litígio (de nenhuma forma apropriado a um homem sábio) que Aristóteles teve com a Natureza: “aos animais, ela concedeu tanto tempo de vida, que eles sobrevivem por cinco ou dez gerações; ao homem, nascido para tantos e tão grandes feitos, está estabelecido um limite muito mais próximo.” Não é curto o tempo que temos, mas dele muito perdemos. A vida é suficientemente longa e com generosidade nos foi dada, para a realização das maiores coisas, se a empregamos bem. Mas, quando ela se esvai no luxo e na indiferença, quando não a empregamos em nada de bom, então, finalmente constrangidos pela fatalidade, sentimos que ela já passou por nós sem que tivéssemos percebido. O fato é o seguinte: não recebemos uma vida breve, mas a fazemos, nem somos dela carentes, mas esbanjadores. Tal como abundantes e régios recursos, quando caem nas mãos de um mau senhor, dissipam-se num momento, enquanto que, por pequenos que sejam, se são confiados a um bom guarda, crescem pelo uso, assim também nossa vida se estende por muito tempo, para aquele que sabe dela bem dispor.

Trecho retirado do livro "Sobre a Brevidade da Vida"

SINOPSE: 'Sobre a Brevidade da Vida' é a obra mais difundida do filósofo Lúcio Anneo Sêneca (4 a.C.? - 65 d.C.) e um dos textos mais conhecidos de toda a Antigüidade latina. São cartas dirigidas a Paulino (cuja identidade é controversa), nas quais o sábio discorre sobre a natureza finita da vida humana. São desenvolvidos temas como aprendizagem, amizade, livros e a morte, e, no correr das páginas, vão sendo apresentadas maneiras de prolongar a vida e livrá-la de mil futilidades que a perturbam sem, no entanto, enriquecê-la. Escritas há quase dois mil anos, estas cartas compõem uma leitura inspiradora para todos os homens, a quem ajudam a avaliar o que é uma vida plenamente vivida.

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Olhar por Aline Elias

 


Teu olhar anoitece 
Interrogando aleatória cilada 
Nada deveria atrapalhar
Uma corrida de gazela 

A desorientada esperança 
Água gelada e morna 
Enquanto fervem os 
desejos incessantes

O rio vermelho pesado
Ramificado se espalha
Deixa ciente da mortalidade
uma vampira gulosa de juventude

Anseio transformar o rio 
em um mar de pérolas
Mas sou impotente raiz
que veio de seilá e voltará para seionde

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

Espero Que Você Esteja Bem - O Livro

 Olá queridos leitores!


Em 2016 eu publiquei o livro "Espero Que Você Esteja Bem", e hoje vou compartilhar com vocês aqui no blog a introdução. Se após a leitura desse texto você quiser adquirir a obra, no final da postagem eu colocarei onde encontrá-lo.



Querido leitor, 

Agradeço o interesse por esse romance baseado nas cartas trocadas entre o meu pai e minha mãe de 1943 a 1947 e nos registros de guerra de meu pai. A principio seria uma obra biográfica da vida de meu pai e quando estava quase no final da biografia decidi escrever o romance. 

O material existente, por ser de família e pertencer aos mortos, parecia-me sagrado e por inúmeras vezes desisti da publicação. Felizmente encontrei amigos, pessoas que escutaram, leram, aconselharam, deram incentivo e ferramentas para que conseguisse dar continuidade. O exercício durante o processo da escrita foi o de integrar textos fragmentados que não tinham como objetivo inicial a composição de um livro. No entanto, os textos eram a história, mesmo que algumas vezes de maneira compulsivamente repetitiva e abordando o mesmo tema de vários ângulos diferentes. 

O mundo da escrita é sedutor e fiquei absolutamente arrebatada  de paixão pela obra. O amor pela minha família fazia com que cumprisse as tarefas diárias mas as ideias para os capítulos, as palavras, as frases, rondavam dia e noite os meus pensamentos. Escrevi nas noites escuras, na claridade do amanhecer, nas salas de espera, entre casamentos, no lindo nascimento, em viagens, na casa cheia, na casa vazia. Não houve planejamento dos capítulos, os pulos no tempo aconteceram pela imaginação. E cada vez que seguia em frente, esculpindo as palavras, escrevendo e reescrevendo as frases, os personagens saíam do pensamento mágico e criavam vida. Gastei os olhos no processo de revisar, o medo de errar, a mania da perfeição. E depois cortar, eliminar as partes que não fossem relevantes, deletar os detalhes desnecessários. 

Quando honrei a história ela tomou força e seguiu o próprio rumo. Durante todo o trabalho senti a benção dos meus ancestrais, as vozes antigas, quase esquecidas,  abriram um oásis no meu coração. E a publicação realiza a história, o que não compartilhamos deixa de existir e vira pó. Reverencio os mortos como os indígenas na noite em que eles vestem troncos de madeira com as roupas dos ancestrais. 

Convido você para ajudar-me a colocar vestimentas em meus personagens, dançar junto comigo e trazê-los a vida abrindo as páginas desse livro. 

Kuarup.


O livro "Espero Que Você Esteja Bem" está disponível na Editora Biografia (Avenida Brigadeiro Faria Lima, 1795). Qualquer dúvida mande um email para veradefina@uol.com.br ! Boa leitura!

sexta-feira, 28 de julho de 2023

Um Sonho por Edgar Allan Poe

 


UM SONHO

SONHEI, entre visões da noite escura,
com a alegria morta, mas meu sonho
de vida e luz me despertou, tristonho,
com o coração partido de amargura.

Ah! que não vale um sonho à luz do dia
para aquêle que os olhos traz cravados
nas coisas que o rodeiam e os desvia
para tempos passados?

Aquêle santo sonho, sonho santo,
enquanto o mundo repelia o pária,
deu-me o confôrto, como luz de encanto
a conduzir uma alma solitária.

E embora a luz, por entre a tempestade
e a noite, assim tremesse, tão distante,
que poderia haver de mais brilhante
no claro sol da estrêla da Verdade?


A DREAM

In visions of the dark night
I have dreamed of joy departed —
But a waking dream of life and light
Hath left me broken-hearted.

Ah! what is not a dream by day
To him whose eyes are cast
On things around him with a ray
Turned back upon the past?

That holy dream — that holy dream,
While all the world were chiding,
Hath cheered me as a lovely beam
A lonely spirit guiding.

What though that light, thro' storm and night,
So trembled from afar —
What could there be more purely bright
In Truth's day-star?

- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

sexta-feira, 21 de julho de 2023

Horas Rubras por Florbela Espanca

 



HORAS RUBRAS

Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas...

Oiço as olaias rindo desgrenhadas...
Tombam astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p’las estradas...

Os meus lábios são brancos como lagos...
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras...

Sou chama e neve branca e misteriosa...
e sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!

Florbela Espanca

sexta-feira, 14 de julho de 2023

O ÚLTIMO POEMA por Manoel Bandeira

 


O ÚLTIMO POEMA

Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Manoel Bandeira

sexta-feira, 7 de julho de 2023

Mania por Aline Elias

 


Mania

As histórias pulam dentro da minha cabeça.  Aparecem e de repente estou dentro delas sem controle, montando e desmontando, juntando palavras. Ontem estava ao lado de alguém sem palavras. No jantar, com um grupo de amigos que encontro uma vez por mês, a namorada de um deles o acompanha quieta, alheia. Presente fisicamente e enquanto todos conversam, discursam, falam do cotidiano, do trabalho, da família, de si próprios,  ela continua calada. Chega quase a cochilar com todo o barulho de conversa à sua volta. Esconde as palavras, fechadas a sete chaves. Um dia ela não vai agüentar e vai dizer: agora é minha vez.  Espero ansioso por uma única frase mas ela não diz nada e quando chega o momento de se despedir acena com a mão. Acho que sabia que iria escrever o que ela falasse, Posso inventar que ela discutiu com o meu amigo e disse que nunca mais irá a esses jantares. Ou que comentou que a comida é cara e o grupo é esnobe. Poderia também ter dito que sente inveja da nossa amizade porque não tem amigas que a acompanhem em jantares mensais. Fiquei incomodado com o fato dela não falar, uma falta de atenção, quase desprezo. Mais de meia noite e estou escrevendo o que ninguém vai ler.  Coisa de maluco.

Aline Elias      

terça-feira, 27 de junho de 2023

A Tua Voz na Primavera por Florbela Espanca


A TUA VOZ NA PRIMAVERA


Manto de seda azul, o céu reflete

Quanta alegria na minha alma vai!

Tenho os meus lábios úmidos: tomai

A flor e o mel que a vida nos promete!

Sinfonia de luz meu corpo não repete

O ritmo e a cor dum mesmo beijo... olhai!

Iguala o sol que sempre às ondas cai,

Sem que a visão dos poentes se complete!

Meus pequeninos seios cor-de-rosa,

Se os roça ou prende a tua mão nervosa,

Têm a firmeza elástica dos gamos...

Para os teus beijos, sensual, flori!

E amendoeira em flor, só ofereço os ramos,

Só me exalto e sou linda para ti!


Florbela Espanca


domingo, 25 de junho de 2023

Madri por Aline Elias

 

MADRI


O maravilhoso Touro 

Que representa a luta 

Uma resistência do animal 

Qual o homem acuado 

Enfrentando a morte 

Pela sobrevivência.  


Aline Elias







sexta-feira, 16 de junho de 2023

Dois Poemas: Ousadia / Ansiedade

 


OUSADIA


Conselhos transformadores 

Credos de outros crentes 

Vai e vem e vem e vai 

Até que você ousa 

Ser você.


ANSIEDADE


Com a Ansiedade 

Vem a Dor 

O Sofrimento 

Tristeza de corpo e alma 


Aline Elias