Vejo a cena como se fosse hoje. Os últimos acordes do piano soavam aflitos com a professora ao lado do banquinho, sentada na cadeira e com os óculos de perto analisando o mais perto possível as minhas mãos.
Abaixa o pulso menina.
Para a Dona Haydee, a melhor professora do bairro, todos os seus alunos eram futuros virtuoses. Eu tenho lá comigo algumas dúvidas porque sou boa em tocar escalas, mas surda demais para identificar notas sem partitura. Nessas noites que antecedem os jogos da copa saio do conservatório com dor nos ouvidos. Mas não posso faltar nas aulas.
E coloco os bofes de fora descendo e subindo ladeira e percorrendo umas dez quadras até chegar em casa. E ela estará sentada no canto do sofá debaixo da escada, rodeada de linhas, agulhas, tesoura e tecido para fazer roupa ou cortina com os olhos grudados na TV branca e preta.
Senta que acabou de começar e depois fazemos um lanche.
E pego a caneta e picoto papéis rapidamente porque parece que o jogo será difícil e vamos precisar do ritual de amarrar os jogadores do time adversários. Os quatro olhos, ou melhor seis, contando as lentes dos meus óculos, não desgrudam da tela. Estamos sozinhas e não entendemos de futebol, além disso está difícil escrever esses nomes de estrangeiros repletos de consoantes. Mas ela incentiva:
Escreve rápido filha, do jeito que você entende.
Quando o jogo acaba a sala está repleta de papeizinhos com nome ilegíveis amarrados em fitas.
Amarradas as mãos do goleiro da Itália.
E o próximo jogo será melhor que esse, impossível perder com Pelé jogando como um deus nessa copa dos sonhos de 1970.
Como será a copa de 2018?
Não sei, mas para evitar uma derrota, sento no canto do sofá e picoto os papéis e corto as fitas amarrando e amarrando e amarrando. Esse pode ser um jeito, quem sabe de chamar o sonho de volta.
Aline Elias
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