sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Mania por Aline Elias


Mania

As histórias pulam dentro da minha cabeça.  Aparecem e de repente estou dentro delas sem controle, montando e desmontando, juntando palavras. Ontem estava ao lado de alguém sem palavras. No jantar, com um grupo de amigos que encontro uma vez por mês, a namorada de um deles o acompanha quieta, alheia. Presente fisicamente e enquanto todos conversam, discursam, falam do cotidiano, do trabalho, da família, de si próprios,  ela continua calada. Chega quase a cochilar com todo o barulho de conversa à sua volta. Esconde as palavras, fechadas a sete chaves. Um dia ela não vai agüentar e vai dizer: agora é minha vez.  Espero ansioso por uma única frase mas ela não diz nada e quando chega o momento de se despedir acena com a mão. Acho que sabia que iria escrever o que ela falasse, Posso inventar que ela discutiu com o meu amigo e disse que nunca mais irá a esses jantares. Ou que comentou que a comida é cara e o grupo é esnobe. Poderia também ter dito que sente inveja da nossa amizade porque não tem amigas que a acompanhem em jantares mensais. Fiquei incomodado com o fato dela não falar, uma falta de atenção, quase desprezo. Mais de meia noite e estou escrevendo o que ninguém vai ler.  Coisa de maluco.

Aline Elias      

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